19 junho, 2014

Meu caro amigo Chico,


O que seria ouvir te ouvir no vivo do dia? O que seria ver a clareza de teu olhar? O que seriam teus gestos espontâneos pegando o violão, olhando para um lado outro? Quando fui ao Rio, certa feita, orava ao Redentor para te ver passando e não te ver, pois não sei o que de mim seria depois desse um dia.

Tua voz é uma das minhas lembranças mais remotas e está entrelaçada a meu ser, tal forma não conceberia um mundo sem a rouquidão das tuas músicas. Pulava pequenina esperando ‘A banda’ passar, cantando coisas de amor. Mais tarde, numa aula ginasial compreendi o ‘Cálice’, que se tornou o hino que entoava em meu peito adolescente nas brigas familiares, em plena ditadura. ‘Geni’ era minha avó, e ficava fula da vida toda vez que ouvia teus impropérios! Muito mais tarde compreendi o que dizias.  Quando engravidei, aos 17, ouvia ‘O caderno’ aos prantos e, ao término do malfadado namoro, num dezembro triste, ‘Anos dourados’ foi o som das noites insones. E depois ‘Folhetim’.

Ninei minha filha, e agora minhas netas, cantarolando ‘João e Maria’. ‘Roda-viva’ eu cantava nos bares, abraçada aos amigos, vislumbrando o mundo girando. 'Apesar de você’ soava em meus pensamentos depois da derrocada de Lula para Collor. Tantas desilusões depois passaram, ‘Todo sentimento’ era o fundo de todo término de um amor. Quando minha grande amiga morreu os ‘Pedaços de mim’ que faltaram tiveram som. E depois, todos os que se foram.

E quando o ‘Cotidiano’ me prendia em seu tédio, lembrava que todo dia-a-dia tem alguma poesia.  E quando a paixão me tirava do chão e eu não sabia ‘O que será que será’ que seria. 

E é um mundaréu de sons e palavras belas, todas ressoando em algum lugar de mim, de toda gente. Seja burguês, pobre, proletário, dama, prostituta, mocinha decente, machista, feminista, homossexual, transexual, heterossexual, indeciso, triste, alegre, louco, jovem, velho, doutor, analfabeto, sulino, nordestino, tucano, socialista, petista, anônimo, artista, seja quem for, onde for, tua arte é para todos sem distinção de qualquer espécie.

Estás dentro do arco que compreende minha existência, som que embala o sono bom, som dos carnavais, som que cria esperança no dia mais triste, pedaço do céu, uma estrela nas noites de festa, de ardor, de solidão. O mundo é mais bonito com teu olhar, Chico, luzeiro tão lindo de ouvir, palavras que tocam na gente como pele. Como gente.

Muita vida, Chico,e felicidade, sim!


Claudia Félix


Ainda sonho um sonho possível: te ouvir ao vivo, e aqui!  E fica aqui registrado meu apoio à campanha: Vem pra Floripa, Chico, vem!

Um comentário:

simone gallego disse...

Ei Claudinha, morei no Rio e, neste tempo, também rezava pra encontrá-lo (e não encontrá-lo). Uma vez fui mais ousada. Fui até o gramado dele, no Recreio dos Bandeirantes. Rodei mais de uma hora só pra encontrar o portão, abrir um sorrisão e tirar um retrato.

Depois, o porteiro me disse, ele vem hj pro jogo.... mas ainda é cedo....

E o dilema? Fico ali ou não fico..?

Parti. Já tinha guardado no corpo a arritmia do coração - e a foto haveria de me fazer lembrar desse dia, caso, por ventura ou impropério do destino, eu dele esquecesse.

Amei ler seu texto e sentir tudo isso novamente.

dia 19 tb fiz um mimo pra ele, com uma das minhas diletas músicas.

bj no coração

simone

patiodotempo.blogspot.com

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"e o mundo é meu, o mundo é seu, de todo mundo..." Zeca Baleiro