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17 maio, 2012

Sobre sucatas



Isto porque a gente foi criada em lugar onde não tinha brinquedo fabricado. Isso porque a gente havia que fabricar os nosso próprios brinquedos. Eram boizinhos de osso, bolas de meia, automóveis de lata. Também a gente fazia de conta que sapo era boi de cela e viajava de sapo. Outra era ouvir nas conchas as origens do mundo. Estranhei muito quando, mais tarde, precisei de morar na cidade. Na cidade, um dia, contei a minha mãe que vira na praça um homem sentado num cavalo de pedra a apontar uma faca comprida pro alto. Minha mãe me corrigiu que não era uma faca, era uma espada. E que o homem era um herói da nossa história. Claro que eu não tinha educação de cidade pra entender que um homem sentado num cavalo de pedra era herói. Eram pessoas antigas da história que um dia salvaram a nossa Pátria. Pra mim aqueles homens em cima da pedra não passavam de sucata. Eram a grande sucata da história. Porque eu achava que uma vez no vento esses homens seriam como trastes, como pedaços de camisa ao vento. Lembrava dos espantalhos vestindo as minhas camisas. O mundo era um pedaço complicado para um menino que viera da roça.Não vi nenhuma coisa mais bonita na cidade do que um passarinho. Vi que tudo que o homem fabrica vira sucata: automóvel, avião, televisão. E o que não vira sucata é árvore, rã, pedra. Até nave espacial vira sucata. Agora eu penso que até uma garça branca de brejo é mais bonita que uma nave espacial. Peço desculpas por cometer essa verdade.

Manoel de Barros

Foto: Reflexos de um dia. Hospital de Caridade. Florianópolis.

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Hoje lembramos tua existência, meu pai. É bem sabido que da vida se leva nada, mas assim dito fica claro que se deixa é tudo: os sonhos realizados, os inacabados, os nem sonhados. Os risos, choros, silêncios, problemas, deixa-se todos. As conversas, os olhares, as casas, as prateleiras, as lutas. Os acertos, os erros, os pássaros, as casas de passarinho, as ferramentas usadas. Os lugares, os caminhos, o vento sul e o céu, tudo. 







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02 abril, 2012

Sou um sujeito cheio de recantos




Sou um sujeito cheio de recantos.
Os desvãos me constam.
Tem hora leio avencas.
Tem hora, Proust.
Ouço aves e beethovens.
Gosto de Bola-Sete e Charles Chaplin.

O dia vai morrer aberto em mim.




Manoel de Barros




Foto: Rendas de folhas. Lagoa da Conceição. Florianópolis. SC.

31 maio, 2011

para renovar o homem



A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como
sou - eu não aceito.
Não agüento ser apenas um
sujeito que abre
portas, que puxa válvulas,
que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora,
que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem
usando borboletas.


Manoel de Barros
Foto: Pequenos lindos momentos. Florianópolis. 

05 maio, 2011

por Tute





Lugar sem comportamento é o coração
Ando em vias de ser compartilhado.
Ajeito as nuvens no olho.
A luz das horas me desproporciona.
Sou qualquer coisa judiada de ventos.
Meu fanal é um poente com andorinhas.
Desenvolvo meu ser até encostar na pedra.
Repousa uma garoa sobre a noite.
Aceito no meu fado o escurecer.
No fim da treva uma coruja entrava.



Manuel de Barros

15 fevereiro, 2011

Matéria de poesia



Todas as coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância
servem para poesia

O homem que possui um pente
e uma árvore
serve para poesia

Terreno de 10x20, sujo de mato - os que
nele gorjeiam: detritos semoventes, latas
servem para poesia

Um chevrolé gosmento
Coleção de besouros abstêmios
O bule de Braque sem boca
são bons para poesia

As coisas que não levam a nada
têm grande importância
Cada coisa ordinária é um elemento de estima

Cada coisa sem préstimo
tem seu lugar
na poesia ou na geral

O que se encontra em ninho de joão-ferreira:
caco de vidro, garampos,
retratos de formatura,
servem demais para poesia

As coisas que não pretendem, como
por exemplo: pedras que cheiram
água, homens
que atravessam períodos de árvore,
se prestam para poesia

Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma
e que você não pode vender no mercado
como, por exemplo, o coração verde
dos pássaros,
serve para poesia

As coisas que os líquenes comem
- sapatos, adjetivos -
têm muita importância para os pulmões
da poesia

Tudo aquilo que a nossa
civilização rejeita, pisa e mija em cima,
serve para poesia

Os loucos de água e estandarte
servem demais
O traste é ótimo
O pobre-diabo é colosso

Tudo que explique
o alicate cremoso
e o lodo das estrelas
serve demais da conta

Pessoas desimportantes
dão pra poesia
qualquer pessoa ou escada

Tudo que explique
a lagartixa de esteira
e a laminação de sabiás
é muito importante para a poesia

O que é bom para o lixo é bom para a poesia

Importante sobremaneira é a palavra repositório;
a palavra repositório eu conheço bem:
tem muitas repercussões
como um algibe entupido de silêncio
sabe a destroços

As coisas jogadas fora
têm grande importância
- como um homem jogado fora

Aliás é também objeto de poesia
saber qual o período médio
que um homem jogado fora
pode permanecer na terra sem
nascerem em sua boca as raízes da escória

As coisas sem importância são bens de poesia

Pois é assim que um chevrolé gosmento chega
ao poema, e as andorinhas de junho.

Manoel de Barros


Foto: Aviso aos navegantes. Rainha do Mar, RS. 

28 maio, 2010




Lugar sem comportamento é o coração
Ando em vias de ser compartilhado.
Ajeito as nuvens no olho.
A luz das horas me desproporciona.
Sou qualquer coisa judiada de ventos.
Meu fanal é um poente com andorinhas.
Desenvolvo meu ser até encostar na pedra.
Repousa uma garoa sobre a noite.
Aceito no meu fado o escurecer.
No fim da treva uma coruja entrava.


Manoel de Barros

Desenho: por Troche

patiodotempo.blogspot.com

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"e o mundo é meu, o mundo é seu, de todo mundo..." Zeca Baleiro