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09 maio, 2024

Poesia: uma bandeira!

Meu netinho escrevendo
(ou desenhando) no muro

defendo a poesia

aquela que toca
corações solitários
nas manhãs sombrias

aquela que semeia
palavras em crianças
nas tardes chuvosas

aquela que traduz
sentimentos tateantes
nas noites de amor

aquela que acalenta
sonhos (im)possíveis
nas madrugadas insones


Claudia Félix


ou algum dia

- escreves para quem?
- para aquele que não me lê.
- porque?
- para que ele nunca
me decifre.


Claudia Félix

19 novembro, 2020

Qual o som do seu silêncio?

Parte 1

A proposta era mandar uma resposta para a pergunta: "Qual o som do seu silêncio". Apenas 40 pessoas seriam selecionadas e ganhariam "O livro das cores não ditas #2". Eis minha resposta:

"Chilreios suaves de pássaros, latidos ao longe quando em vez, marulho das ondas no fim da rua e o farfalhar de vento nas arvores. (Quando estou sozinha em casa, e a paz baixa por sobre todas as coisas, a vida ao redor pulsa, fazendo este silêncio em mim..."

E um dia me recebi um e-mail dizendo que havia sido sorteada! O livro demorou um tempinho, mas quando chegou, quanta lindeza... Eu deveria mandar em troca algo que tivesse valor afetivo.

Desde ali fiquei pensando no que mandar. A casa cheia de verão e mil coisas por fazer. Só em finais de abril consegui começar. Costurei uma toalhinha de mesa simples (as que mais gosto), uma cestinha de pão, um descansa-bule bordado e junto uma toalhinha de crochê feito por minha avó - era esta a peça afetiva que mandava. E como é difícil doar algo que se ama e de quem se ama. Só em maio enviei. E depois esperei ansiosamente quando chegaria lá, o que elas diriam. Em junho postaram no Facebook.


Parte 2

Tempo para tomar um café-da-manhã. Tempo para tomar chá com a mãe e a irmã caçula. Tempo para fazer um bolo para a amiga que virá. Tempo para sentir um poema. Tempo para costurar um presente. Tempo para o por-do-sol. Tempo para correr com as netas. Tempo para namorar. Tempo para conversar com a filha. Tempo para ver as flores crescendo. Tempo para escrever para as irmãs que moram longe. Tempo para fazer comida com o sobrinho. Tempo para jantar com o enteado. Tempo para perceber as cores. Tempo para trabalhar. Tempo para ouvir o silêncio.

Todos estes tempos o Coletivo Xícara me fez pensar. No tempo que já se foi, no tempo que estamos, no que virá. Em como cada vez mais as pessoas tem pouco tempo para o contato real com o mundo. Como a relação de compra substituiu a generosidade da troca. Como o afeto é importante entre nós.

...

Parte 3

E neste dia que escrevi estes parágrafos acima, com a idéia de terminar mais tarde, recebi a notícia de que uma amiga muito jovem e muito querida morreu.

O silêncio tocou fundo, o silêncio das lágrimas que caem para dentro. Minhas palavras perderam o sentido. Ainda preciso construir este tempo: o de estar mais com todas as pessoas que amo, pois o tempo que perdemos não se recupera, mas o tempo que compartilhamos se multiplica para a eternidade!


((Só tenho a agradecer por todo o tempo que compartilhei nesta vida contigo, Danielle, uma das pessoas mais alegres e divertidas que já conheci.))

(((Escrito em 2014))) 


24 setembro, 2015

do tempo

un-gif-dans-ta-gueule:

variation of an old gif…



Os anos passaram rápido 
por nossos olhos, peitos, cabelos, 
por todos os dias e horas 
que nem sabemos mais 
quanto riso e quanta lágrima, 
quanto amor e angústia, 
quanto sonho.


Claudia Félix


09 setembro, 2015

Primeira netinha

Minha primeira netinha- 2010






e ela trouxe
no sorriso do olhar
um céu sem nuvens
uma ternura tão grande
a alegria mais pura
a esperança urgente
ensinando a gente
o que é na verdade
amar.


Claudia Félix


...

Hoje minha neta mais velha fez 5 anos. "Uma mão cheia", disse ela com orgulho. Agora ela não é mais pequena, já é média! Hoje faz 5 anos que me tornei avó e descobri o que é o melhor amor da vida! 

Toda felicidade, proteção, saúde, amor, diversão, aprendizado, sorte e muitos muitos presentes, meu amor de netinha!


24 agosto, 2014

apenas


tanto tempo passou
aqui estamos
esquecidos
de coração que bate lento
de olhar perdido
um sentimento arde
nesta tarde fria
um silêncio sussurra
um cão late lá fora
uma vontade de ser
abraçada
apenas


Claudia Félix

19 agosto, 2014

Irmãs...


Hoje é dia do aniversário de minhas irmãs gêmeas.

Passei o dia todo com minha dupla de netinhas e, por conta de minhas irmãs morarem fora e nossos fusos diferentes, não consegui falar com elas, nem por Skype.

Fiquei observando as duas irmãzinhas, irmãs no sentido mais puro e primordial do termo: em todas as idas e vindas, uma ficava tentando chegar primeiro que a outra nos lugares. A maior muitas vezes enrolando a menor, a menor chorando e ganhando a disputa com a intervenção da mãe. As duas querendo um mesmo livro, um mesmo carrinho, uma mesma boneca, um mesmo tudo. A maior brincando num brinquedo, a menor esperando a vez. A menor comendo tudo, a maior enrolando. Uma correndo para um lado a outra disparando para outro e nós dividindo pra qual lado correr. As duas falando ao mesmo tempo e querendo o meu olhar. A menor falando numa língua incrível, mistura de português com olhares arregalados, cabeça no ombro e boca de beijinho, complexo demais para mim, e a maior traduzindo com muita calma, explicando que ela falava do passarinho que bateu no vidro e fez dodói. As duas rindo juntas, as duas chorando juntas, ... A maior abraçando a pequenina com olhar de tanto amor. A menor olhando a maior com adoração eterna...

Lembrei muito de vocês, muito de nós, irmãs, de como esse nosso amor foi sendo construído desde tão pequeninas, entre muitos tapas e beijos, disputas e solidariedade. Lembrei de como é fundamental a vida de vocês em minha vida. Lembrei da saudade que faz parte de meu rosto no espelho da manhã. Lembrei de como é bom saber que, aconteça o que acontecer, temos umas às outras.

Como queria estar hoje aí comendo um bolo de morango com chantilly, jogando conversa fora e, simplesmente, sentindo na pele o calor suave de ter vocês perto de meu coração.


Claudia Félix

Foto: Netinhas no meu coração. Florianópolis. 19 agosto 2014

21 junho, 2014

trago uma flor


trago uma flor
do pátio da casa
que já foi tua
trago um silêncio
um aperto no peito
uma lágrima perdida
trago tua lembrança
para sempre
em minha vida




Claudia Félix

...

para meu irmão, que faria 50 anos.

19 junho, 2014

Meu caro amigo Chico,


O que seria te ouvir no vivo do dia? O que seria ver a clareza de teu olhar? O que seriam teus gestos espontâneos pegando o violão, olhando para um lado outro? Quando fui ao Rio, certa feita, orava ao Redentor para te ver passando e não te ver, pois não sei o que de mim seria depois desse dia.

Tua voz é uma das minhas lembranças mais remotas e está entrelaçada a meu ser, tal forma não conceberia um mundo sem a rouquidão das tuas músicas. 

Pulava pequenina esperando ‘A banda’ passar, cantando coisas de amor. Mais tarde, numa aula ginasial compreendi o ‘Cálice’, que se tornou o hino que eu entoava em meu peito adolescente nas brigas familiares, em plena ditadura. ‘Geni’ era o nome de minha avó, e ficava na fula da vida toda vez que ouvia teus impropérios! Muito mais tarde compreendi o que dizias.  Quando engravidei, aos 17, ouvia ‘O caderno’ aos prantos e, ao término do malfadado namoro, num dezembro triste, ‘Anos dourados’ foi o som das noites insones. E depois ‘Folhetim’.

Ninei minha filha, e agora minhas netas, cantarolando ‘João e Maria’. ‘Roda-viva’ eu cantava nos bares, na época da faculdade, abraçada aos amigos, vislumbrando um mundo melhor . 'Apesar de você’ foi o tema da festa de fim de ano, depois da derrocada de Lula para Collor. Tantas desilusões amorosas depois passaram, ‘Todo sentimento’ era o fundo de cada término de um amor. E quando minha grande amiga morreu os ‘Pedaços de mim’ que faltaram tiveram som. E depois, o de todos os que se foram.

E quando o ‘Cotidiano’ me prendia com seu tédio, lembrava que todo dia-a-dia tem alguma poesia.  E quando a paixão me tirava do chão e eu não sabia ‘O que será que será’, e seria. 

E é um mundaréu de sons e palavras belas, poemas, todas ressoando em algum lugar de meu ser e de toda gente. Seja burguês, pobre, proletário, dama, prostituta, mocinha decente, bandido, machista, feminista, homossexual, transsexual, heterossexual, indeciso, triste, alegre, louco, criança, jovem, velho, doutor, analfabeto, sulino, nordestino, capitalista, socialista, petista, anônimo, artista, seja quem for, onde for, tua arte é para todos sem distinção de qualquer espécie (exceto nazistas).

Estás dentro do arco que compreende minha existência, som que embala o sono bom, som dos carnavais, som que cria esperança nos dias tristes, um pedaço azul do céu, uma estrela nas noites de festa, uma chama nas noites de ardor, um alento nas noites de solidão. O mundo é mais bonito com teu olhar, Chico, luzeiro tão lindo de ouvir, palavras que tocam na gente como pele. Como gente. 

Muita vida, Chico, e felicidade, sim!


Claudia Félix


Ainda sonho um sonho possível: te ouvir ao vivo, e aqui!  E fica aqui registrado meu apoio à campanha: Vem pra Floripa, Chico, vem!

11 junho, 2014

Com quantos sonhos se faz uma netinha?




Com quantas asas se faz uma fada?
Com quantas piruetas se faz uma bailarina? 
Com quantas coroas se faz uma princesa?
Com quantos abraços se faz uma ursinha?

Basta apenas uma Lilizinha
e tudo se faz num instante:
fada, bailarina, princesa, ursinha, ...
Infinitos sonhos numa só netinha!



...

Há dois anos Lili fez do mundo
uma bola fofinha e feliz
recheada de amor:
do mais doce :)



 Claudia Félix

04 junho, 2014

melancolia


É tarde, sei, tenho que dormir. Mas faz tempo que não escrevo e hoje preciso. É que meus pés ficaram gelados o dia todo apesar das muitas meias. Sinto falta de algo quente. Hoje revi antigas amigas: um sabor de saudade, de tempo que passa. Tenho me deparado com esta questão do tempo: o rosto no espelho, a vontade de arrumar umas coisas, jogar fora outras, de apagar frases mal ditas, de mudar o cabelo, de aproveitar os minutos e, se possível, diminuir a rotação da Terra.

Faz tanto frio em meu quarto, os pés gelaram até pensamentos. Meu rim dói. Tive medo. Quero um colo, um afago, teus pés esquentando os meus. Hoje especialmente.

Ou amanhã.




Claudia Félix

(Num dia frio de 2012)



24 maio, 2014

Do amor maior do mundo


os filhos nunca crescem
no coração da gente
criam em nossas vidas
um recanto para sempre encantado
com cheiro de talco, riso de neném
barulho de correria no pátio
abraço apertado de braço pequenino
olhos iluminados, nariz vermelho
sopinha de batata, chá com mel e limão
um lugar único
de alegria sem fim
e quando eles voam
seguros e lindos
construindo seus sonhos
pessoas maravilhosas
neste mundo difícil
criam um novo lugar
no coração da gente
um lugar onde sorri uma mãe
realizada


Claudia Félix

...

Hoje é dia de celebrar tua vida, minha filha!!! Mulher incrível, mãe leoa e amorosa, esposa apaixonada, neta carinhosa, sobrinha estimada, prima divertida, amiga fiel, nora adorável, patroa querida, e a melhor filha do mundo!!! A cada dia te desejo, meu amor maior do mundo, toda felicidade, toda alegria, toda sorte, toda proteção, todo amor e tudo que há de mais belo!!! Amor, mammy. 

18 maio, 2014

ausência





e a tardinha cai
suave
e no alto uma pandorga
avisa do vento
ao pescador atento
a vida segue
e fica apenas
esta saudade
esta ausência
no mundo
que a brisa
leva




Claudia Félix





hoje fui na praia deixar o vento me abraçar neste dia de memória e lamento: dia do aniversário de meu pai, que se foi, e fica sempre este algo estranho no peito, nestes dias que já foram de comemorar... 

24 abril, 2014

Mucho más grave


Todas las parcelas de mi vida tienen algo tuyo
y eso en verdad no es nada extraordinario
vos lo sabés tan objetivamente como yo

sin embargo hay algo que quisiera aclararte
cuando digo todas las parcelas

no me refiero sólo a esto de ahora
a esto de esperarte y aleluya encontrarte
        y carajo de perderte
        y volverte a encontrar
        y ojalá nada más

no me refiero sólo a que de pronto digas
        voy a llorar
y yo con un discreto nudo en la garganta
        bueno llorá
y que un lindo aguacero invisible nos ampare
y quizá por eso salga enseguida el sol

ni me refiero sólo a que día tras día
aumente el stock de nuestras pequeñas
        y decisivas complicidades
o que yo pueda         o creerme que puedo
        convertir mis reveses en victorias
o me hagas el tierno regalo
        de tu más reciente desesperación

no
la cosa es muchísimo más grave

cuando digo todas las parcelas
quiero decir que además de ese dulce cataclismo
también estás reescribiendo mi infancia
esa edad en que uno dice cosas adultas y solemnes
y los solemnes adultos las celebras
y vos en cambio sabés que eso no sirve
quiero decir que estás rearmando mi adolescencia
ese tiempo en que fui un viejo cargado de recelos
y vos sabés en cambio extraer de ese páramo
mi germen de alegría         y regarlo mirándolo

quiero decir que estás sacudiendo mi juventud
ese cántaro que nadie tomó nunca en sus manos
esa sombra que nadie arrimó a su sombra
y vos en cambio sabés estremecerla
hasta que empiecen a caer las hojas secas
y quede el armazón de mi verdad sin proezas

quiero decir que estás abrazando mi madurez
esta mezcla de estupor y experiencia
este extraño confín de angustia y nieve
esta bujía que ilumina la muerte
este precipicio de la pobre vida

como ves es más grave
muchísimo más grave
porque con estas o con otras palabras
quiero decir que no sos         tan sólo
la querida muchacha que sos
sino también las espléndidas
        o cautelosas mujeres
        que quise o quiero

porque gracias a vos he descubierto
(dirás que ya era hora
                                        y con razón)
que el amor es una bahía linda y generosa
que se ilumina y se oscurece
                según venga la vida

una bahía donde los barcos
        llegan y se van

llegan los pájaros y augurios
y se van con sirenas y nubarrones
una bahía linda y generosa
donde los barcos llegan
                y se van
pero vos
por favor
                no te vayas.





Mario Benedetti

07 junho, 2013

As folhas no outono



as flores secaram
na estampa
do vestido
as linhas pontilharam
pelo caminho
prometido
o vento apagou
as iniciais na areia
escrito
é fim-de-tarde
na praia deserta
de um tempo
ido



Claudia Félix



01 abril, 2013

primaveras


Começo de primavera. Aoste. FR.

a flor busca seu caule
o perfume do mato molhado
no corpo, no sonho
ser mulher, nua, sua,
suave lembrança
das pétalas soltas
da terra

a flor busca sua raiz
ser, consigo, feliz



Claudia Félix





...
escrita em abril de 2010, para LR

10 fevereiro, 2013

Carnaval


Sonho de carnaval. Mercado Público de Florianópolis. Por Claudia Félix
Fogos e tempestades
medo e euforia
pela ilha assustada

Batucadas e  DJs
embalam ébrios
em brilhantes fantasias

Por todo canto
liquidação de carne
felicidade-mercadoria

Cada um busca
de sonho um pouco, e muito do riso
carnaval faz parte do osso
viver é preciso


Claudia Félix





patiodotempo.blogspot.com

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"e o mundo é meu, o mundo é seu, de todo mundo..." Zeca Baleiro