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24 julho, 2023

Nalgum lugar

Roseira do pátio de casa. 2022.

nalgum lugar em que eu nunca estive, 
alegremente além
de qualquer experiência, 
teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil 
há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar 
porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar 
facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, 
nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala 
como a primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) 
a sua primeira rosa

ou se quiseres me ver fechado,
eu e minha vida nos fecharemos belamente,
de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade: cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respiras

(não sei dizer o que há em ti que fecha e abre;
só uma parte de mim compreende que a voz dos teus olhos
é mais profunda que todas as rosas)

ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas...

(E.E. Cummings, traduzido por Augusto de Campos)


"Nalgum lugar" - musicado por Zeca Baleiro...

23 agosto, 2013

Invento


Vento
Quem vem das esquinas
E ruas vazias
De um céu interior

Alma
De flores quebradas
Cortinas rasgadas
Papéis sem valor

Vento
Que varre os segundos
Prum canto do mundo
Que fundo nao tem

Leva
Um beijo perdido
Um verso bandido
Um sonho refém

Que eu não possa ler, nem desejar
Que eu não possa imaginar

Oh, vento que vem
Pode passar
Inventa fora de mim
Outro lugar

Vento
Que dança nas praças
Que quebra as vidraças
Do interior

Alma
Que arrasta correntes
Que força as batentes
Que zomba da dor

Vento
Que joga na mala
Os móveis da sala
E a sala também

Leva
Um beijo bandido
Um verso perdido
Um sonho refém

Que eu não possa ler, nem desejar
Que eu não possa imaginar

Oh, vento que vem
Pode passar
Inventa fora de mim
Outro lugar


Vitor Ramil

...

Um som que encanta num dia solitário, entre ventos e costuras, no sul do mundo.

24 setembro, 2012

Amor de índio




Tudo o que move é sagrado
E remove as montanhas
Com todo cuidado, meu amor
Enquanto a chama arder
Todo dia te ver passar
Tudo viver a teu lado
Com o arco da promessa
Do azul pintado pra durar

Abelha fazendo mel
Vale o tempo que não voou
A estrela caiu do céu
O pedido que se pensou
O destino que se cumpriu
De sentir seu calor e ser todo
Todo dia é de viver
Para ser o que for e ser tudo

Sim, todo amor é sagrado
E o fruto do trabalho
É mais que sagrado, meu amor
A massa que faz o pão
Vale a luz do seu suor
Lembra que o sono é sagrado
E alimenta de horizontes
O tempo acordado de viver

No inverno te proteger
No verão sair pra pescar
No outono te conhecer
Primavera poder gostar
No estio me derreter
Pra na chuva dançar e andar junto
O destino que se cumpriu
De sentir seu calor e ser tudo


Maria Gadú
Composição: Beto Guedes


Foto: Pela vida com você. 
Jardim de Casa. Campeche.


08 setembro, 2012

Ciranda Bailarina



Procurando bem
Todo mundo tem pereba
Marca de bexiga ou vacina
E tem piriri
Tem lombriga, tem ameba
Só a bailarina que não tem
E não tem coceira
Verruga nem frieira
Nem falta de maneira ela não tem
Futucando bem
Todo mundo tem piolho
Ou tem cheiro de creolina
Todo mundo tem
Um irmão meio zarolho
Só a bailarina que não tem
Nem unha encardida
Nem dente com comida
Nem casca de ferida ela não tem
Não livra ninguém
Todo mundo tem remela
Quando acorda as seis da matina
Teve escarlatina
Ou tem febre amarela
Só a bailarina que não tem
Medo de subir, gente
Medo de cair, gente
Medo de vertigem quem não tem?
Confessando bem
Todo mundo faz pecado
Logo assim que a missa termina
Todo mundo tem
Um primeiro namorado
Só a bailarina que não tem
Sujo atrás da orelha
Bigode de groselha
Calcinha um pouco velha ela não tem
O padre também
Pode até ficar vermelho
Se o vento levanta a batina
Reparando bem
Todo mundo tem pentelho
Só a bailarina que não tem
Sala sem mobília
Goteira na vasilha
Problema na família quem não tem?
Procurando bem
Todo mundo tem


Adriana Partimpim

. . .

Por que há dois anos comecei a ser avó, e descobri o que há de mais delicioso e divertido na vida: netinhas!!! 



19 agosto, 2012

Eu sei que vou te amar


Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar
Em cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente
E cada verso meu será
Pra te dizer
que eu sei que vou te amar
Por toda minha vida
Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua eu vou chorar
Mas cada volta tua há de apagar
O que esta ausência tua me causou
Eu sei que vou sofrer
a eterna desventura de viver
A espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida


Tom Jobim

. . .

Meu peito apertado abraça a lembrança de vocês, neste final-de-tarde de agosto, nesta casa que passamos grande parte da vida. Como adoraria estar ao lado de vocês e correr pelas ruas e brincar de amarelinha, e lamber as panelas dos doces, e olhar em seus olhos e saber que, para sempre, estaremos juntas!

30 julho, 2012

Ah se não fosse o amor



A minha ilha não existe mais
Será que o mar já percebeu
Ela desapareceu
Ah se não fosse o amor
Pra recolher o óleo que vazou

Mas ninguém viu a marca no meu corpo
Como é que pode alguém entrar
E dentro se desmanchar?
Nunca esqueça as oferendas
Quando contar na rua as nossas lendas

Mudei pra laje de um prédio vermelho
No alto é sempre bem melhor
Pra quem vive só
Ah se não fosse o amor
E a força incrível do seu reator

Dentro do mar o velho marinheiro
Na sua orelha um brinco de anzol
Brilha seu brinco no alvo do sol
Brilha seu brinco no alvo do sol

Chamei você
Mas você não veio
Eu entendi que era normal
Nada pessoal
Ah se não fosse o amor



Lirinha
Foto: A minha ilha não existe mais. Beira-mar. Flrorianópolis.


. . .


Dia desses vi um programa "Ensaio" com  José Paes de Lira, mais conhecido como Lirinha, vocalista da performática banda "Cordel do fogo encantado", que me impressionou deveras. Crescido em meio a cantorias de viola no sertão pernambucano, Lirinha faz uma música única, inovadora. Sua voz traz a força e a aridez dos nordestinos, e toda beleza daquelas terras. 

29 março, 2012

A ordem das árvores




Naquele curió mora um pessegueiro
Em todo rouxinol tem sempre um jasmineiro
Todo bem-te-vi carrega uma paineira
Tem sempre um colibri que gosta de jatobá

Beija-flor é casa de ipê

Cada andorinha é lotada de pinheiro
e o joão-de-barro adora o eucalipto

A ordem das árvores não altera o passarinho

Naquele pessegueiro mora um curió
Em todo jasmineiro tem sempre um rouxinol
Toda paineira carrega um bem-te-vi
Tem sempre um jatobá que gosta de colibri

Beija-flor é casa de ipê

Cada pinheiro é lotado de andorinha
e o joão-de-barro adora o eucalipto

A ordem das árvores não altera o passarinho


Tulipa Ruiz

Foto: Pátio do tempo. Imbé. RS

. . .
Para Ana Lú: árvores, pássaros, céu, raios de sol, esta música... tudo de lindo da vida pra ti, iluminada e grande amiga. 

30 dezembro, 2011

Canção do sal




Trabalhando o sal é amor o suor que me sai
Vou viver cantando o dia tão quente que faz
Homem ver criança buscando conchinhas no mar
Trabalho o dia inteiro pra vida de gente levar


Água vira sal lá na salina
Quem diminuiu água do mar
Água enfrenta sol lá na salina
Sol que vai queimando até queimar


Trabalhando o sal pra ver a mulher se vestir
E ao chegar em casa encontrar a família feliz
Filho vir da escola problema maior é o de estudar
Que é pra não ter meu trabalho e vida de gente levar




Por Elis Regina
Composição: Milton Nascimento


Foto: Coragem. No jardim de casa. Campeche. Florianópolis.


...


que o ano que chega renove nossas esperanças e traga em seus ventos e sóis a força e a coragem para continuarmos a luta,  que não é pequena
que a vida seja respeitada em toda parte, por toda gente, em cada ser, cada coisa
que os dias vindouros sejam campos floridos repletos de possibilidades
que nossos filhos e netos cresçam num mundo mais lindo: aquele que construímos!


24 setembro, 2011

Primavera



Quando o inverno chegar
Eu quero estar junto a ti
Pode o outono voltar
Eu quero estar junto a ti
Porque (é primavera)
Te amo (é primavera)
Te amo, meu amor
Trago esta rosa (para te dar)
Trago esta rosa (para te dar)
Trago esta rosa (para te dar)
Meu amor...
Hoje o céu está tão lindo (sai chuva)
Hoje o céu está tão lindo (sai chuva)


Tim Maia




para meu amor, sol, cor, luz, calor... 

21 setembro, 2011

Beau Soir




Lorsque au soleil couchant les rivières sont roses,
Et qu'un tiède frisson court sur les champs de blé,
Un conseil d'être heureux semble sortir des choses
Et monter vers le coeur troublé.

Un conseil de goûter le charme d'être au monde,
Cependant qu'on est jeune et que le soir est beau,
Car nous nous en allons comme s'en va cette onde,
Elle à la mer, nous au tombeau.

Paul Bourget

Quando ao pôr do sol os rios tornam-se rosados
E uma leve agitação cai sobre os campos de trigo,
Um conselho para ser feliz parece emanar das coisas
E ascender ao coração aflito;

Um conselho para desfrutar o encanto de estar no mundo,
Pois se é jovem e a noite é bela.
E nós estamos indo como a onda vai:
Ela ao mar, nós ao túmulo

Paul Bourget

...

Claude Debussy compôs "Beau Soir" entre seus 20 e 21 anos, inspirado neste poema de Paul Bourget.


11 agosto, 2011

Balada de Agosto


Lá fora a chuva desaba e aqui no meu rosto
Cinzas de agosto e na mesa o vinho derramado
Tanto orgulho que não meço
O remorso das palavras que não digo

Mesmo na luz não há quem possa se esconder no escuro
Duro caminho o vento a voz da tempestade
No filme ou na novela
É o disfarce que revela o bandido

Meu coração vive cheio de amor e deserto
Perto de ti dança a minha alma desarmada
Nada peço ao sol que brilha
Se o mar é uma armadilha nos teus olhos

Fagner e Zeca Baleiro


08 agosto, 2011

A casa é sua



Não me falta cadeira
Não me falta sofá
Só falta você sentada na sala
Só falta você estar

Não me falta parede
E nela uma porta pra você entrar
Não me falta tapete
Só falta o seu pé descalço pra pisar

Não me falta cama
Só falta você deitar
Não me falta o sol da manhã
Só falta você acordar

Pras janelas se abrirem pra mim
E o vento brincar no quintal
Embalando as flores do jardim
Balançando as cores no varal

A casa é sua
Por que não chega agora?
Até o teto tá de ponta-cabeça
Porque você demora

A casa é sua
Por que não chega logo?
Nem o prego aguenta mais

O peso desse relógio
Não me falta banheiro, quarto
Abajur, sala de jantar
Não me falta cozinha
Só falta a campainha tocar

Não me falta cachorro
Uivando só porque você não está
Parece até que está pedindo socorro
Como tudo aqui nesse lugar

Não me falta casa
Só falta ela ser um lar
Não me falta o tempo que passa
Só não dá mais para tanto esperar

Para os pássaros voltarem a cantar
E a nuvem desenhar um coração flechado
Para o chão voltar a se deitar
E a chuva batucar no telhado

A casa é sua
Por que não chega agora?
Até o teto tá de ponta-cabeça
Porque você demora

A casa é sua
Por que não chega logo?
Nem o prego aguenta mais
O peso desse relógio


Arnaldo Antunes e Ortinho

Foto: Nossa casa. Florianópolis. 
 . . .
Arnaldo Antunes passou pela ilha com sua alegria contagiante e uma doçura que transborda e que faz brilhar em nossos corações a esperança de dias felizes. Mas o melhor show, meu lindo, é a vida! Que bom é viver com você...    

21 junho, 2011

como se diz adeus?

ontem o dia passou
como se não fosse
e não era:
sempre será
tento esquecer
que fostes
tão cedo ainda
e ainda não encontrei
os acenos certos
nem talvez nunca
como se diz adeus
acho que não sei
ainda


Claudia Félix


24 maio, 2011

my girl



I've got sunshine
On a cloudy day
When it's cold outside
I've got the month of may
I guess you'll say
What can make me feel this way
My girl, My girl, My girl
Talking about my girl
My girl

I've got so much honey
The bees envy me
I've got a sweeter song
Than the birds in the trees
Well i guess you'll say
What can make me feel this way
My girl, My girl, My girl
Talking about my girl
My girl

I don't need no money
Fortune or fame
I've got all the riches baby
One man can clain
Well i guess you'll say
What can make me feel this way
My girl, My girl, My girl
Talking about my girl
My girl

Talking about my girl
I've got sunshine on a cloudy day
My girl
I've even got the month of may
with my girl


The Temptations


Foto: Eu e minha filha. 1989. Florianópolis. SC.

Ela é feita de todos os meus mais lindos sonhos, todos! 
E agora é ela quem está colhendo seus mais lindos sonhos... e é tão mais lindo...

16 maio, 2011

A ilusão da casa



As imagens descem como folhas
No chão da sala
Folhas que o luar acende
Folhas que o vento espalha

Eu plantado no alto em mim
Contemplo a ilusão da casa
As imagens descem como folhas
Enquanto falo

Eu sei
O tempo é o meu lugar
O tempo é minha casa
A casa é onde quero estar
Eu sei

As imagens se acumulam
Rolam no pó da sala
São pequenas folhas secas
Folhas de pura prata

Eu plantado no alto em mim
Contemplo a ilusão da casa
As imagens se acumulam
Rolam enquanto falo

Eu sei
O tempo é o meu lugar
O tempo é minha casa
A casa é onde quero estar
Eu sei

As imagens enchem tudo
Vivem do ar da sala
São montanhas secas
São montanhas enluaradas

Eu plantado no alto em mim
Contemplo a ilusão da casa
As imagens enchem tudo
Vivem enquanto falo

Eu sei
O tempo é o meu lugar
O tempo é minha casa
A casa é onde quero estar
Eu sei


Vitor Ramil
Foto: No pátio de mim. Campeche. Florianópolis.

Hoje, tantos ontens. Amanhã? Tudo ainda. Quero encontrar minha casa. Vamos?

02 maio, 2011

Âmbar



tá tudo aceso em mim
tá tudo assim tão claro
tá tudo brilhando em mim
tudo ligado
como se eu fosse um morro iluminado
por um âmbar elétrico
que vazasse nos prédios
e banhasse a lagoa até são conrado
e ganhasse as canoas
aqui do outro lado
tudo plugado
tudo me ardendo
tá tudo assim queimando em mim
como salva de fogos
desde que sim eu vim
morar nos seus olhos

Adriana Calcanhoto
Foto: Da esperança. São Martinho. SC.

A distância não nos aproximará. O silêncio enche o quarto de sombras. Busco apenas tuas mãos para meu coração cansado. Abrace-me. Queira-me. Guarde-me. Em mim a vida arde. E te anseia.

03 abril, 2011

Corsário




Meu coração tropical está coberto de neve mas
Ferve em seu cofre gelado
E a voz vibra e a mão escreve mar
Bendita lâmina grave que fere a parede e traz
As febres loucas e breves
Que mancham o silêncio e o cais

Roserais nova granada de espanha
Por você eu teu corsário preso
Vou partir na geleira azul da solidão
E buscar a mão do mar
Me arrastar até o mar, procurar o mar

Mesmo que eu mande em garrafas
Mensagens por todo o mar
Meu coração tropical partirá esse gelo e irá
Com as garrafas de náufragos
E as rosas partindo o ar
Nova granada de espanha
E as rosas partindo o ar


João Bosco e Aldir Blanc


Foto: El tiempo que pasa... Poeminha por Flavia T. Florianópolis.

29 março, 2011

Gentileza



Sempre que penso em ti, amiga, 
a palavra 'gentileza' encontra sentido em todas as coisas.
Hoje é dia de celebrar-te!

patiodotempo.blogspot.com

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"e o mundo é meu, o mundo é seu, de todo mundo..." Zeca Baleiro