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14 junho, 2012

Bolacha bolachinha



Bolacha bolachinha
essa é sua
essa é minha

olha a moça
lá na rua
passando
apressadinha

bolacha bolachinha
essa é sua
essa é minha

Estrela Dalva
lá no céu
nasce a lua
redondinha

bolacha bolachinha
essa é sua
essa é minha.


Pedro Bertolino *
Foto editada: Sonhos de O. 

. . .

Dias em cor-de-rosa, com a chegada de Olívia... 


* O grande poeta brasileiro, Pedro Bertolino, fez esta alegre cantiga para minha segunda netinha, que nasceu esta semana. Obrigada meu querido mestre e inestimável amigo. 






14 junho, 2011

caminhada


e mesmo que seja tarde
ou que não seja
tanto faz, se há luz
e se o sol brilha nas manhãs
em algum lugar 
é para lá que irei
mesmo que distante 
mesmo assim resta
sempre resta outra possibilidade
ou tantas outras
nem tantas quanto sonhei
mas tantas quanto possível
porque só há caminho na realidade
porque ela é bruta
e por isso sólida
(porque ela é bruta)
e ainda que cansada 
não posso parar, não podemos
e só andamos, e só faz sentido
se temos um norte,
ou mesmo um sul,
algum lugar que seja
não esse em que já estamos
porque senão morremos,
sim, morremos,
e há tantas formas de morrer
mesmo que vivos
por isso
vale a pena erguer-se
olhar pra frente
pras coisas, pros outros
perceber o mundo
e mesmo que seja difícil
(porque é, apesar de simples)
e mesmo que seja horrível
(porque as vezes é, apesar de raro)
e mesmo que as vezes
tudo seja tão outra coisa
do que desejava
vale a pena continuar
porque não estou sozinha,
não estamos
basta estender os braços ...
ainda que
pareça tarde


Claudia Félix
Imagem: Jean-Paul Sartre caminhando nas dunas.

Escrevi estas linhas em 2000 para ti, Pedro Bertolino: tua vida é linda demais...  Gracias por el fuego!

01 agosto, 2009

IV

não te encontro porque não és


o medo te fez a negação de ti mesma
já nasceste entre paredes absurdas
estás perdida no escuro
suspensa no vácuo
não ouves nem mesmo teu grito
a casa é toda silêncios
teus pés não tocam tua essência


caminhas sempre no pátio impossível
do ser que não és


Pedro Bertolino
Foto: Os caminhantes. Beira-mar. Florianópolis.

26 fevereiro, 2009

III


sou o que restou após a guerra

ajudei na morte de meus pais
tomei a vida de meus irmãos
estrangulei o menino que fui
cuspi na face do anjo
fiz meu filho ser aborto

paguei todo preço possível
para suportar o grande peso
e te buscar neste momento


Pedro Bertolino

Foto: Red house. Ribeirão da Ilha. Florianópolis.

07 outubro, 2007

para suportar o grande peso



O Morro da Cruz
não tinha luz
nem televisão
era apenas
Morro do Antão.

A Ponte Hercílio Luz
tinha trilhos de pranchão
e um guarda sempre de plantão (...)


O ônibus
parava na Alfândega
e não se chamava terminal
era apenas ponto final (...)

A chuva
Molhava a gente
nas noites de carnaval.

O Job sabia de tudo
frequentava o senadinho
e sacaneava aquele mudo
do café do seu Foguinho (...)

A Dona Traça
se pintava
na Figueira da Praça
todas as manhãs.

As lavadeiras de Sambaqui
pareciam margaridas
deixando as ruas floridas
com seu ti-ti-ti.

Desciam na Catedral
de um ônibus quase sem bancos
e levavam na cabeça
aqueles seus sacos brancos.

Com as duas mãos soltas
cumpriam desenvoltas
seu rito matinal.

Eram marias
Marias de carnaval
levando na patroa
as roupas do varal.

O Morro da Cruz
não tinha luz
nem televisão.
Era apenas
Morro do Antão.




Pedro Bertolino - Poemilhas

Foto: Insular, eu sou. Florianópolis.

patiodotempo.blogspot.com

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"e o mundo é meu, o mundo é seu, de todo mundo..." Zeca Baleiro