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24 dezembro, 2009

Tudo faltaria


Ainda que no meu minuto de poesia eu praticasse
o nudismo completo da alma
e as gentes se curvassem diante de minha pureza;
embora eu possuísse a graça dos lírios do campo
e a minha palavra fosse como água clara
rolando da montanha
e eu me sentasse ao lado dos sábios da terra;
e ainda que eu tivesse a beleza de Pauline Bonaparte
e os homens me chamassem de divina
e a doçura das úmidas bergamotas
meu amado sempre achasse em minha boca;
ainda assim, tudo faltaria
se eu não tivesse o humano em todos os meus gestos.
Se o rosto de todas as crianças
eu não quisesse banhado de ventura
como se elas tivessem brotado de minha carne
e devorado meu sangue antes de nascer.
Tudo faltaria
se eu não fosse capaz de querer
para todo ser humano
o pão, a rosa e a paz.


Maura de Senna Pereira


Foto: Das coisas belas. Urubici. SC.

18 novembro, 2008

Libertação



Que eu saia de mim
e corte com ânsia todos os mares
e chegue a todas as praias sem fadiga.
Que eu esteja nas grandes planícies, nas montanhas, no lodo
e no tumulto, na orla dos lagos e dos abismos.
Que eu saia de mim
e fique nos caminhos o meu hálito.
Que todos os clamores e todos os risos
e também todos os silêncios repercutam em minha orelha
e a minha língua se torne clara e ardente como o sol
e todos me entendam, os meninos, os pobres.
Que eu saia de mim
e com a soma de minhas libertações
e a massa de minhas vitórias sobre mim
me volte leve e humana
para as angústias e os problemas dos homens.
Que eu saia de mim
e jamais interrogue sobre o princípio, sobre o fim,
mas sempre diante do universo
meu espírito agnóstico seja um olho comovido.
Que eu saia para sempre de mim
e seja uma nova criatura
em que as coisas e os seres fiquem grudados.
Que eu não volte para mim
que para sempre me perca
e da criatura salva
todos sejam impregnados.


Maura de Senna Pereira

Foto: Pela grama verde. Imbé. RS.

11 setembro, 2008

Canto da amante amada




Ainda trazendo sol e sal
além do ímpeto e da esperança
chegou o Amado.
É alvo o leito e o instante é alvo
porque desatado
de tudo o que antes
turvava o amor.
Nada conspurca
incompleta ou ensombra
meu festim da entrega
e o total carinho pela noite alta
me faz tão sagrada
que me julgo a terra.
Ah, ei sei que - um dia - estarei derramada
em cinzas pelas companheiras rosas
mas - antes - rosas brotarão em mim.






Maura de Senna Pereira in "País de Rosamor"

Foto: Rosa de tecido do Shopping. Florianópolis. By Poeminha.

patiodotempo.blogspot.com

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"e o mundo é meu, o mundo é seu, de todo mundo..." Zeca Baleiro