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27 julho, 2012

É preciso viver...








É preciso viver momento a momento na nossa evolução. Para isso é preciso ter paciência e não querer fechar a conta antes do fim de cada etapa.


Simone de Beauvoir


Foto: Simone de Beauvoir por Pierre Boulat. 
Paris, 1955

. . . 

E há esses dias em que apenas minha amiga Simone diz o que preciso ouvir... 

06 dezembro, 2011

a cidade em mim








“... Às vezes, basta-me uma partícula que se abre no meio de uma paisagem incongruente, um aflorar de luzes na neblina, o diálogo de dois passantes que se encontram no vaivém, para pensar que, partindo dali, construirei pedaço por pedaço a cidade perfeita, feita de fragmentos misturados com o resto, de instantes separados por intervalos, de sinais que alguém envia e não sabe quem capta”.



Italo Calvino in "As cidades invisíveis"



Foto: Paisagens da infância. Florianópolis. 

16 novembro, 2011

escolher-se




Para a realidade humana, ser é escolher-se: nada lhe vem de fora, nem tão-pouco de dentro, que possa receber ou aceitar. Está inteiramente abandonada, sem auxílio de nenhuma espécie, à insustentável necessidade de se fazer ser até ao mais ínfimo pormenor. Assim, a liberdade não é um ser: é o ser do homem, quer dizer, o seu nada de ser. (...) O homem não pode ser ora livre, ora escravo; ele é inteiramente e sempre livre, ou não é.


Jean-Paul Sartre, em 'O Ser e o Nada'




Foto: Da terra. Ribeirão da Ilha. Florianópolis.

29 dezembro, 2010

do futuro


Já vimos que a minha liberdade exige, para se realizar, desembocar num futuro aberto: são os outros homens que me abrem o futuro, são eles que, constituindo o mundo de amanhã, definem meu futuro. Mas se, ao invés de me permitirem participar desse movimento construtor, obrigam-me a consumir em vão minha transcendência, se me mantém abaixo do nível que conquistaram e a partir do qual se efetuarão as novas conquistas, então eles me cortam o futuro, transformam-me em coisa. A vida é gasta alternadamente em perpetuar-se e em ultrapassar-se. Se ela apenas se mantém, então viver é tão-somente não morrer e a existência humana não se distingue de uma vegetação absurda. Uma vida se justifica apenas se seu esforço para perpetuar-se está integrado em sua superação e se essa superação não tem outros limites além daqueles que se coloca o próprio sujeito.

Simone de Beauvoir em "A moral da Ambiguidade"


Foto: O ano da Joaninha. Florianópolis. SC.

10 agosto, 2010

do escritor


Foto: Copiada da internet.
Não queremos ter vergonha de escrever e não sentimos a necessidade de falar para não dizer nada. De resto, ainda que o desejássemos, não o conseguiríamos: ninguém pode conseguir isso. Todos os escritos possuem um sentido, mesmo que esse sentido esteja muito afastado daquele que o autor tenha pensado dar-lhe. Para nós, com efeito, o escritor não é Vestal nem Ariel: está «metido no caso», faça o que fizer, marcado, comprometido, mesmo no seu mais profundo afastamento. Se, em certas épocas, utiliza a sua arte para forjar bugigangas de inanidade bem soante, até isso é significativo: é porque há uma crise das letras e, sem dúvida, da sociedade.



Jean-Paul Sartre, in `Situações II

27 junho, 2010

O grande capital


Foto: Da coletânea 'Men at work'. Lewis W. Hine.  

O jovem anda sozinho, rápido em meio à multidão que se dissipa das ruas escuras; os pés cansados das horas de caminhada; os olhos ávidos pela curva cálida de um rosto, brilho de olhos que correspondem, a posição de uma cabeça, um erguer de ombros, a maneira como as mãos se abrem e fecham; o sangue fervilha de desejo; a mente é uma colméia de desejos zumbindo e ferroando; músculos doem do trabalho, o trabalho com picareta e a pá do consertador de estradas, o manejo do pescador com o gancho quando recolhe a escorregadia rede da amurada da traineira adernada, o movimento do braço do homem na ponte ao lançar o rebite em brasa, a mão experiente do maquinista no afogador, o uso que o agricultor faz de seu corpo quando, ao tocas as mulas, desengancha o arado do sulco. O jovem anda sozinho, varrendo a multidão com olhos ávidos, ouvidos ávidos e tensos para escutar, sozinho, só.


John dos Passos - O grande capital


...
É o primeiro parágrafo: vertigem literária ao ler estas linhas. Debruço-me sobre a capa e preparo para o mergulho. 

31 maio, 2010

das escolhas




É preciso decidir sobre a oportunidade de um ato e tentar medir-lhe a eficácia sem conhecer os fatores pertinentes. Como o sábio que, para conhecer um fenômeno, não espera que brote sobre ele a luz da ciência acabada mas, esclarecendo o fenômeno, contribui, ao contrário, para constituir a ciência, assim o homem de ação não esperará, para decidir, que um perfeito conhecimento lhe prove a necessidade de uma certa escolha - ele deve inicialmente escolher e contribuir, assim, para formar a história. Uma tal escolha não é mais arbitrária que uma hipótese, não exclui nem a reflexão nem mesmo o método, mas é também livre e implica riscos que é necessário assumir como tais.


Simone de Beauvoir em "A moral da ambiguidade"

Desenho: por Troche

23 abril, 2010

e o silêncio tem suas vozes



 
Mas - todo mundo já passou por isso - podemos nos divertir com o coração em luto. A emoção mais violenta e mais sincera não dura: algumas vezes ela suscita atos, engendra manias, mas desaparece; por outro lado, uma preocupação, provisoriamente afastada, não deixa de existir: está presente no próprio cuidado que tomo de evitá-la. Muitas vezes as palavras são apenas silêncio, e o silêncio tem suas vozes. (...)

(...) Mas o que conta antes de tudo em minha vida é que o tempo passa; envelheço, o mundo muda, minha relação com ele varia; mostrar as transformações, os amadurecimentos, as irreversíveis degradações dos outros e de mim mesma, nada me importa mais. Isso me obriga a seguir docilmente a sequência dos anos.


Simone de Beauvoir em "A força das coisas"

Foto: Das coisas silenciosas. Porto Alegre. RS.

04 abril, 2010






Quarenta anos. Quarenta e um. Minha velhice germinava. Espreitava-me no fundo do espelho. O que me deixava estupefata era que viesse num passo tão decidido, enquanto nada em mim estava de acordo com ela.


Simone de Beauvoir






Foto: Do tempo que passa. Santo Antônio de Lisboa.  Florianópolis.
By LR Marques. 

01 março, 2010


Sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando, mas quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois.


Guimarães Rosa
em Grande sertões: veredas.




Foto: Facear com surpresas. Córrego Grande. Florianópolis.

18 novembro, 2009

sempre




Quanto mais ando, querendo pessoas, parece que entro mais no sozinho do vago... - foi o que pensei na ocasião. De pensar assim me desvalendo. Eu tinha culpa de tudo, na minha vida, e não sabia como não ter. Apertou em mim aquela tristeza, da pior de todas, que é a sem razão de motivo; que, quando notei que estava com dor-de-cabeça, e achei que por certo a tristeza vinha era daquilo, isso até me serviu de bom consolo. E eu nem sabia mais o montante que queria, nem aonde eu extenso ia.


Guimarães Rosa


Foto: Das coisas aladas. Praia da Daniela. Florianópolis.

* meu pai, cuja largura do tempo nos afasta... amanhã: 3 anos...

nestes últimos dias arrumamos a casa da praia: as paredes foram pintadas, as madeiras... havia um desenho teu guardado da casinha de bonecas da Piu, teus óculos ainda estão na gaveta ao lado do aplicador de insulina, a casinha de passarinhos amarela que fizemos juntos, ... estar aqui é quase sentir um carinhoso abraço, daqueles que nunca demos.

10 novembro, 2009

o que conta


(...)


"O que conta é o que somos, é aprofundar a própria relação com o mundo e com o próximo, uma relação que pode ser concomitantemente de amor pelo que existe e de vontade de transformação. Depois colocamos a ponta da caneta no papel em branco, estudamos certa angulação da qual saem sinais que têm sentido, e vemos o que sai dali. (Não raro, também se rasga tudo.)"


Italo Calvino


Foto: Das coisas iluminadas. Cacupé. Florianópolis.

05 novembro, 2009


Lhe cansavam, sim, as coisas sem alma. Ao menos a árvore, dizia ele, tem alma eterna: a própria terra. A gente toca o tronco e sente o sangue da terra circulando em nossas íntimas veias. E ficou. Parado, murchas as pálpebras.


Mia Couto


* um presente delicado de Simone

09 setembro, 2009

Up!



Agora preciso de tua mão, não para que eu não tenha medo, mas para que tu não tenhas medo. Sei que acreditar em tudo isso será, no começo, a tua grande solidão. Mas chegará o instante em que me darás a mão, não mais por solidão, mas como eu agora: Por amor.


Clarice Lispector

Ilustração: UP

Numa noitinha adorável, assisti com meus Fófis esta deliciosa e onírica animação em 3D!

Em momentos assim viro criança, uma que nem fui...

08 setembro, 2009

só a poesia





Em certos períodos da história, só a poesia é capaz de lidar com a realidade, condensando-a e transformando-a em alguma coisa compreensível, em alguma coisa que de outra maneira não poderia ser apreendida pelo espírito.


Joseph Brodsky



"Menos que um - ensaios"
Foto: Composição em azul e rosa sobre terra e vida. Campeche. Florianópolis.

21 agosto, 2009

um dia



Um dia virá em que todo meu movimento será criação, nascimento, eu romperei todos os nãos que existem dentro de mim, provarei a mim mesma que nada há a temer, que tudo o que eu for será sempre onde haja uma mulher com meu princípio, erguerei dentro de mim o que sou um dia.


Clarice Lispector

12 agosto, 2009

ausência




... olhava no espelho aquela que eles viam: não era eu; estava ausente, ausente de toda parte: onde me encontrar? Enlouquecia. `Viver é mentir', pensava, sucumbida; em princípio nada tinha contra a mentira, mas praticamente era esgotante fabricar incessantemente máscaras para mim.



Simone de Beauvoir

Foto: Leia-me. Centro. Porto Alegre. RS.

14 julho, 2009

...se nos banhamos assim no futuro...

Tentai apreender a vossa consciência e sondai-a. Vereis que está vazia, só encontrareis nela o futuro. Nem sequer falo dos vossos projectos e expectativas: mas o próprio gesto que surpreendeis de passagem só tem sentido para vós se projectardes a sua realização final para fora dele, fora de vós, no ainda-não. Mesmo esta taça cujo fundo não se vê - que se poderia ver, que está no fim de um movimento que ainda não se fez -, esta folha branca cujo reverso está escondido (mas poderia virar-se a folha) e todos os objectos estáveis e sólidos que nos rodeiam ostentam as suas qualidades mais imediatas, mais densas, no futuro.

O homem não é de modo nenhum a soma do que tem, mas a totalidade do que não tem ainda, do que poderia ter. E, se nos banhamos assim no futuro, não ficará atenuada a brutalidade informe do presente? O acontecimento não nos assalta como um ladrão, visto que é, por natureza, um Tendo-sido-Futuro. E, para explicar o próprio passado, não será a primeira tarefa do historiador procurar o futuro?


Jean-Paul Sartre, in 'Situações I'
Foto: Porvir. Cacupé. Florianópolis.

10 julho, 2009

em nossas mãos


É verdade que as divisões brutais e suas consequências teóricas (apodrecimento da ideologia burguesa, interrupção provisória do marxismo) obrigam a nossa época a se fazer sem se conhecer, mas, de outro lado, ainda que soframos mais do que nunca suas pressões, não é verdade que a História nos apareça totalmente como uma força estranha. Ela se faz cada dia por nossas mãos diferente do que acreditamos fazê-la e, por um imprevisto movimento de retorno, nos faz diversos daquilo que acreditamos ser ou tornar-nos; e, entretanto, ela é menos opaca do que foi...


Jean-Paul Sartre - Questão de método

23 abril, 2009

não sei se é assim com todos



Um dia, eu já tinha uma certa idade, no hall de um prédio público, um homem veio até mim. Ele se apresentou e me disse: "Eu a conheço desde sempre. Todo mundo diz que a senhora era bonita quando jovem. Eu vim lhe dizer que, para mim, a senhora é mais bonita agora do que quando era jovem. Gosto menos de seu rosto de moça do que desse de hoje, devastado. (...)

Muito cedo na minha vida ficou tarde demais. Quando eu tinha dezoito anos já era tarde demais. Entre dezoito e vinte e cinco meu rosto seguiu uma direção imprevista. Aos dezoito anos envelheci. Não sei se é assim com todos, nunca perguntei.


Marguerite Duras - "O amante"

Foto: É preciso, pá, navegar. Pântano do Sul. Florianópolis.

patiodotempo.blogspot.com

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"e o mundo é meu, o mundo é seu, de todo mundo..." Zeca Baleiro