Mostrando postagens com marcador Fotografia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Fotografia. Mostrar todas as postagens

05 novembro, 2012

Tristeza









A minha tristeza
não é a do lavrador sem terra.
A minha tristeza
é a do astrônomo cego.


Mia Couto

,,,

No último mês algo mudou drasticamente em minha vida: índios! Redescobri no Brasil o genocídio que continua acontecendo desde a chegada dos portugueses. No interior de todo lugar da américa gritam vozes ancestrais. E descobrimos como somos ainda tão surdos, tão cegos, tão mudos, ...    

30 julho, 2012

Ah se não fosse o amor



A minha ilha não existe mais
Será que o mar já percebeu
Ela desapareceu
Ah se não fosse o amor
Pra recolher o óleo que vazou

Mas ninguém viu a marca no meu corpo
Como é que pode alguém entrar
E dentro se desmanchar?
Nunca esqueça as oferendas
Quando contar na rua as nossas lendas

Mudei pra laje de um prédio vermelho
No alto é sempre bem melhor
Pra quem vive só
Ah se não fosse o amor
E a força incrível do seu reator

Dentro do mar o velho marinheiro
Na sua orelha um brinco de anzol
Brilha seu brinco no alvo do sol
Brilha seu brinco no alvo do sol

Chamei você
Mas você não veio
Eu entendi que era normal
Nada pessoal
Ah se não fosse o amor



Lirinha
Foto: A minha ilha não existe mais. Beira-mar. Flrorianópolis.


. . .


Dia desses vi um programa "Ensaio" com  José Paes de Lira, mais conhecido como Lirinha, vocalista da performática banda "Cordel do fogo encantado", que me impressionou deveras. Crescido em meio a cantorias de viola no sertão pernambucano, Lirinha faz uma música única, inovadora. Sua voz traz a força e a aridez dos nordestinos, e toda beleza daquelas terras. 

17 julho, 2012

Diagnóstico

Para o jovem corvo


Esta enfermidade é degenerativa.

Consiste em destruir os tecidos comunicativos:
em contrair a pele
(perdendo a sensibilidade às carícias),
em reduzir o foco visual
(limitando-o ao espaço do livro que lemos).
Nos fatiga inclusive falar

e cada vez que pronunciamos um som,
nasce equipado de longos pseudópodes cinzas
e sai flutuando na salinha,
como se esse fora seu destino:
ser uma ameba estranha que ignora a hora de 
deitar-se.

Nos afeta o ouvido, surdos no
bunker.
As papilas e a língua já estão paralisadas.
O nariz se converte em antena
e percebemos num instante
a chamusquinha de um queijo ou o enjoativo
de um suspiro.

Diagnóstico:
câncer cíclico de silêncio.
Período de incubação:
os períodos acumulados sem praticar paciência.
Recaídas (a não ser que a ciência do perdão
descubra outras soluções):
tantos quantos fracassos de um junto ao outro.
Tratamento profilático:
uma cena em um bonito restaurante de quando em
quando,
e cada manhã
um pensamento alegre ao dizer "bom dia".


Miren Agur Meabe


Foto: Da janela. Florianópolis. SC.
* tradução livre de Claudia Félix

29 junho, 2012

Poética (II)



Com as lágrimas do tempo
e a cal do meu dia
eu fiz o cimento
da minha poesia

e na perspectiva
da vida futura
ergui em carne viva
sua arquitetura

não sei bem se é casa
se é torre ou se é templo
(um templo sem Deus)

mas é grande e clara
pertence a seu tempo
- entrai, irmão meus!



Vinícius de Moraes
Foto: Tempo. Imbé. RS,


14 junho, 2012

Bolacha bolachinha



Bolacha bolachinha
essa é sua
essa é minha

olha a moça
lá na rua
passando
apressadinha

bolacha bolachinha
essa é sua
essa é minha

Estrela Dalva
lá no céu
nasce a lua
redondinha

bolacha bolachinha
essa é sua
essa é minha.


Pedro Bertolino *
Foto editada: Sonhos de O. 

. . .

Dias em cor-de-rosa, com a chegada de Olívia... 


* O grande poeta brasileiro, Pedro Bertolino, fez esta alegre cantiga para minha segunda netinha, que nasceu esta semana. Obrigada meu querido mestre e inestimável amigo. 






01 junho, 2012

Como árvores



quem diria
que estes poemas de outros
seriam
meus

depois de tudo há homens que não fui
e sem dúvida quis ser
se não por uma vida ao menos por um tempo
ou por um piscar

em troca há homens que fui
e já não sou nem posso ser
e isto não sempre é um avanço
as vezes é uma tristeza

há desejos profundos e nonatos*
que prolonguei como coordenadas
há fantasias que me prometi
e desgraçadamente não cumpri
e outras que cumpri sem prometê-las

há rostos de verdade
que iluminaram minhas fábulas
rostos que não vi mais, porém seguiram
vigiando-me desde
a letra em que lhes coloquei

há fantasmas de carne, outros de osso
também há os de fogo e coração
ou seja corpos em pena, almas em júbilo
que vi ou toquei ou simplesmente pus
a secar
a viver
a gozar
a morrer
porém além está o que percebi distante

eu também escutei uma pomba
que era de outros dilúvios
eu também destrocei um paraíso
que era de outras infâncias
eu também gemi um sonho
que era de outros amores

assim pois
deste misterioso confim da existência
os outros me ampararam como árvores
com ou sem ninhos
pouco importa
não deram inveja, senão frutos

esses outros estão
aqui

seus poemas
são mentiras de punho
são verdades piedosas

estão aqui
rodeando-me
julgando-me
com as pobres palavras que lhes dei

homens que olham a terra e o céu
através da névoa
ou sem seus óculos
também a mim me olham
com a pobre mirada que lhes dei

são outros que estão fora de meu reino
claro
mas também
estou neles

às vezes tem o que nunca tive
às vezes amam o que quis amar
às vezes odeiam lo que estou odiando

de repente me parecem distantes
tão remotos
que me dão vertigem e melancolia
e os vejo minados por um duelo sem pranto
e outras vezes em troca
os pressinto tão perto
que olho por seus olhos
e toco por suas mãos
e quando odeiam me alegro de seu rancor
e quando amam me amparo em sua alegria

quem diria
que estes poemas meus
seriam
de outros


Mario Benedetti
Foto: Dos poemas. Imbé. RS.


* nonato - que não nasceu de parto natural
...
(Livre tradução do poema por Claudia Félix)



27 maio, 2012

clave de sol


não acaso te escolho
nem há destino escrito
em céu distante
passeamos pelas eras
desenhando tantos sonhos
risos e lágrimas, juntos
fogo, gelo, água, ar
estações se sucederam
nos beirais das casas
de passarinho
nestes dias de bruma
lembro do sol
em teu sorriso


Claudia Félix
Foto: Passarim. Imbé. RS.



24 maio, 2012

Tudo


Todas as coisas
do mundo não
cabem numa
idéia. Mas tu-
do cabe numa
palavra, nesta
palavra tudo.



Arnaldo Antunes


Foto: Do amor quando perfeito. Jardim de casa. Campeche.

. . .
Para minha filha, que cresce e floresce de lindos sonhos que se realizam. 



10 maio, 2012

Atmosferas










tessituras suaves
pespontos de sonho
promessas de riso
brotos de sentimento

texturas assim
leves delicadas
secam se expostas
ao esquecimento



Claudia Félix


Foto: Sombra. Imbé. RS. 

02 maio, 2012

Namorados no mirante




Eles eram mais antigos que o silêncio
A perscrutar-se intimamente os sonhos
Tal como duas súbitas estátuas
Em que apenas o olhar restasse humano.
Qualquer toque, por certo, desfaria
Os seus corpos sem tempo em pura cinza.
Remontavam às origens — a realidade
Neles se fez, de substância, imagem.
Dela a face era fria, a que o desejo
Como um hictus, houvesse adormecido
Dele apenas restava o eterno grito
Da espécie — tudo mais tinha morrido.
Caíam lentamente na voragem
Como duas estrelas que gravitam
Juntas para, depois, num grande abraço
Rolarem pelo espaço e se perderem
Transformadas na magma incandescente
Que milênios mais tarde explode em amor
E da matéria reproduz o tempo
Nas galáxias da vida no infinito.

Eles eram mais antigos que o silêncio...

Vinícius de Moraes



Foto:  Das caminhadas. Campeche. Florianópolis.

24 abril, 2012

Cada ciudad puede ser otra



Los amorosos son los que abandonan, 
son los que cambian, 
los que olvidan.                              
                         
Jaime Sabines


Cada ciudad puede ser otra
cuando el amor la transfigura
cada ciudad puede ser tantas
como amorosos la recorren

el amor pasa por los parques
casi sin verlos amándolos
entre la fiesta de los pájaros
y la homilía de los pinos

cada ciudad puede ser otra
cuando el amor pinta los muros
y de los rostros que atardecen
unos es el rostro del amor

y el amor viene y va y regresa
y la ciudad es el testigo
de sus abrazos y crepúsculos
de sus bonanzas y aguaceros

y si el amor se va y no vuelve
la ciudad carga con su otoño
ya que le quedan sólo el duelo
y las estatuas del amor


Mario Benedetti

Foto: Dos dias leves.Urubici. Florianópolis.

17 abril, 2012

Ésta es mi casa




Ésta es mi casa
No cabe duda. Ésta es mi casa
aquí sucedo, aquí
me engaño inmensamente.
Ésta es mi casa detenida en el tiempo.

Llega el otoño y me defiende,
la primavera y me condena.
Tengo millones de huéspedes
que ríen y comen,
copulan y duermen,
juegan y piensan,
millones de huéspedes que se aburren
y tienen pesadillas y ataques de nervios.

No cabe duda. Ésta es mi casa.
Todos los perros y campanarios
pasan frente a ella.
Pero a mi casa la azotan los rayos
y un día se va a partir en dos.

Y yo no sabré dónde guarecerme
porque todas las puertas dan afuera del mundo.


Mario Benedetti

Foto: Minha casa: Florianópolis.

10 abril, 2012

Uma música que seja






... como os mais belos harmônicos da natureza. Uma música que seja como o som do vento na cordoalha dos navios, aumentando gradativamente de tom até atingir aquele em que se cria uma reta ascendente para o infinito. Uma música que comece sem começo e termine sem fim. Uma música que seja como o som do vento numa enorme harpa plantada no deserto. Uma música que seja como a nota lancinante deixada no ar por um pássaro que morre. Uma música que seja como o som dos altos ramos das grandes árvores vergastadas pelos temporais. Uma música que seja como o ponto de reunião de muitas vozes em busca de uma harmonia nova. Uma música que seja como o vôo de uma gaivota numa aurora de novos sons...



Vinícius de Moraes
Foto: Depois da chuva. Florianópolis.


09 abril, 2012

Breves notas (1)




Ontem queimei um lençol,
com o ferro,
fiz isso sozinha,
gravei-lhe um colorido triângulo torrado
graças à televisão.
Tenho sempre a televisão pequena na cozinha
enquanto passo a ferro:
uma criança negra numa guerra
mamava ao peito de sua mãe morta.
Senti que tinha engolido uma bola de pêlo.
Não irei esquecer isso:
o leite gotejou para dentro do meu peito.


Miren Agur Meabe

Foto: Sebastião Salgado.
. . .

O mundo é muito maior que nossa ilha... 





05 abril, 2012

Como esperando abril




Muito mais
além da minha janela,
as nuvens da manhã
são uma flor
que nasceram de um trem.

Um relógio
se transforma em carangueijo
e a capa de um velho
dá com uma tempestade de cupins.

Muito mais
além da minha janela
algodões jogados
para ser um jardim
à espera de abril.

Logo entre os olhos
Pingando a luz do infinito
E é quando necessito
um cão, uma bengala, uma mão, uma fé.
E você passas tocando
o frio com suave silêncio
E, cego, te sentencio
a que nomeies tudo o que agora não sei.

Muito mais
além da minha janela
minha esperança jogava
em uma flor
em um jardim
como esperando abril.




Silvio Rodriguez


* Tradução livre por Claudia Félix


Foto: Sweet heart.  Cupcake feito por minha irmã, Vinha.


04 abril, 2012

Tua caminhada ainda não terminou



Tua caminhada ainda não terminou
A realidade te acolhe
dizendo que pela frente
o horizonte da vida necessita
de tuas palavras
e do teu silêncio.

Se amanhã sentires saudades,
lembra-te da fantasia e
sonha com tua próxima vitória.
Vitória que todas as armas do mundo
jamais conseguirão obter,
porque é uma vitória que surge da paz
e não do ressentimento.

É certo que irás encontrar situações
tempestuosas novamente,
mas haverá de ver sempre
o lado bom da chuva que cai
e não a faceta do raio que destrói.

Tu és jovem.
Atender a quem te chama é belo,
lutar por quem te rejeita
é quase chegar a perfeição.
A juventude precisa de sonhos
e se nutrir de lembranças,
assim como o leito dos rios
precisa da água que rola
e o coração necessita de afeto.

Não faças do amanhã
o sinônimo de nunca,
nem o ontem te seja o mesmo
que nunca mais.
Teus passos ficaram.
Olhes para trás...
mas vá em frente
pois há muitos que precisam
que chegues para poderem seguir-te.


Charles Chaplin



Foto: Síntese da minha vida.

. . .
Hoje é dia de pensar no tempo e na vida, dos que foram, dos que estão, dos que virão - pois é disso que se trata estar vivo: um grande e belo tecido de pessoas amadas. É hora de ponderar o trajeto, encher o coração e recuperar o fôlego, pois a caminhada é longa...  

Parabéns para nós, minha mãe, e graças por tudo que temos!!!


03 abril, 2012

Soon


tocar teu sonho
dedos de vento
sul
sonhar poesia
grama verde
céu azul
curar a ferida
love is coming
soon




Claudia Félix

Foto: Do tempo que passa. Praça dos Bombeiros. Florianópolis. SC.


02 abril, 2012

Sou um sujeito cheio de recantos




Sou um sujeito cheio de recantos.
Os desvãos me constam.
Tem hora leio avencas.
Tem hora, Proust.
Ouço aves e beethovens.
Gosto de Bola-Sete e Charles Chaplin.

O dia vai morrer aberto em mim.




Manoel de Barros




Foto: Rendas de folhas. Lagoa da Conceição. Florianópolis. SC.

29 março, 2012

A ordem das árvores




Naquele curió mora um pessegueiro
Em todo rouxinol tem sempre um jasmineiro
Todo bem-te-vi carrega uma paineira
Tem sempre um colibri que gosta de jatobá

Beija-flor é casa de ipê

Cada andorinha é lotada de pinheiro
e o joão-de-barro adora o eucalipto

A ordem das árvores não altera o passarinho

Naquele pessegueiro mora um curió
Em todo jasmineiro tem sempre um rouxinol
Toda paineira carrega um bem-te-vi
Tem sempre um jatobá que gosta de colibri

Beija-flor é casa de ipê

Cada pinheiro é lotado de andorinha
e o joão-de-barro adora o eucalipto

A ordem das árvores não altera o passarinho


Tulipa Ruiz

Foto: Pátio do tempo. Imbé. RS

. . .
Para Ana Lú: árvores, pássaros, céu, raios de sol, esta música... tudo de lindo da vida pra ti, iluminada e grande amiga. 

28 março, 2012

Para fazer o retrato de um pássaro



Pinta primeiro uma gaiola
com a porta aberta
pinta a seguir
qualquer coisa bonita
qualquer coisa simples
qualquer coisa bela
qualquer coisa útil
para o pássaro.
agora encosta a tela a uma árvore
num jardim
num bosque
ou até numa floresta
esconde-te atrás da árvore
sem dizeres nada
sem te mexeres…
às vezes o pássaro não demora
mas pode também levar anos
antes que se decida.
Não deves desanimar
espera
espera anos se for preciso
a rapidez ou a lentidão da chegada
do pássaro não tem qualquer relação
com o acabamento do quadro.
Quando o pássaro chegar
se chegar
mergulha no mais fundo silêncio
espera que o pássaro entre na gaiola
e quando tiver entrado
fecha a porta devagarinho
com o pincel
depois
apaga uma a uma todas as grades
com cuidado não vás tocar nalguma das penas
Faz a seguir o retrato da árvore
escolhendo o mais belo dos ramos
para o pássaro
pinta também o verde da folhagem a frescura do vento
e agora espera que o pássaro se decida a cantar
se o pássaro não cantar
é mau sinal
é sinal que o quadro não presta
mas se cantar é bom sinal
sinal de que podes assinar
então arranca com muito cuidado
uma das penas do pássaro
e escreve o teu nome num canto do quadro

Jacques Prévert


Foto: Da vida que surpreende e vibra. Florianópolis. SC.


patiodotempo.blogspot.com

patiodotempo.blogspot.com
"e o mundo é meu, o mundo é seu, de todo mundo..." Zeca Baleiro