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24 julho, 2023

Nalgum lugar

Roseira do pátio de casa. 2022.

nalgum lugar em que eu nunca estive, 
alegremente além
de qualquer experiência, 
teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil 
há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar 
porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar 
facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, 
nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala 
como a primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) 
a sua primeira rosa

ou se quiseres me ver fechado,
eu e minha vida nos fecharemos belamente,
de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade: cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respiras

(não sei dizer o que há em ti que fecha e abre;
só uma parte de mim compreende que a voz dos teus olhos
é mais profunda que todas as rosas)

ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas...

(E.E. Cummings, traduzido por Augusto de Campos)


"Nalgum lugar" - musicado por Zeca Baleiro...

11 agosto, 2011

Balada de Agosto


Lá fora a chuva desaba e aqui no meu rosto
Cinzas de agosto e na mesa o vinho derramado
Tanto orgulho que não meço
O remorso das palavras que não digo

Mesmo na luz não há quem possa se esconder no escuro
Duro caminho o vento a voz da tempestade
No filme ou na novela
É o disfarce que revela o bandido

Meu coração vive cheio de amor e deserto
Perto de ti dança a minha alma desarmada
Nada peço ao sol que brilha
Se o mar é uma armadilha nos teus olhos

Fagner e Zeca Baleiro


06 maio, 2010

Minha casa



É mais fácil
Cultuar os mortos
Que os vivos
Mais fácil viver
De sombras que de sóis
É mais fácil
Mimeografar o passado
Que imprimir o futuro...

Não quero ser triste
Como o poeta que envelhece
Lendo Maiakóvski
Na loja de conveniência
Não quero ser alegre
Como o cão que sai a passear
Com o seu dono alegre
Sob o sol de domingo...

Nem quero ser estanque
Como quem constrói estradas
E não anda
Quero no escuro
Como um cego tatear
Estrelas distraídas

Amoras silvestres
No passeio público
Amores secretos
Debaixo dos guarda-chuvas
Tempestades que não param
Pára-raios quem não tem
Mesmo que não venha o trem
Não posso parar

Veja o mundo passar
Como passa
Uma escola de samba
Que atravessa
Pergunto onde estão
Teus tamborins?
Pergunto onde estão
Teus tamborins?
Sentado na porta
De minha casa
A mesma e única casa
A casa onde eu sempre morei


Zeca Baleiro
Desenho: América invertida. Joaquín Torres García.

24 novembro, 2008

Como diria Odair


a felicidade
é uma coisa tão difícil
tão difícil de conseguir
mas de vez em quando ela chega
quando menos se espera
quando nada se espera
ela vem
e fica
um pouco
aqui comigo
por algumas horas minutos segundos

como já falou
o sábio poeta Odair
ouve aí
felicidade não existe
só momentos felizes
no mais são cruzes e crises
e sempre que eu tô feliz
logo vem um infeliz
se fingindo de amigo
querendo apagar o meu sorriso
que é o mais próximo do paraíso
que eu consigo


Zeca Baleiro

Foto: Lights in Playland. Florianópolis.


patiodotempo.blogspot.com

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"e o mundo é meu, o mundo é seu, de todo mundo..." Zeca Baleiro