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09 maio, 2024

Poesia: uma bandeira!

Meu netinho escrevendo
(ou desenhando) no muro

defendo a poesia

aquela que toca
corações solitários
nas manhãs sombrias

aquela que semeia
palavras em crianças
nas tardes chuvosas

aquela que traduz
sentimentos tateantes
nas noites de amor

aquela que acalenta
sonhos (im)possíveis
nas madrugadas insones


Claudia Félix


07 março, 2023

Sol poente

Poente. Campeche. Fevereiro de 2023.

Que bom que você gosta, ele disse,
já que talvez seja o último do tipo.
Não havia nada a dizer;
na verdade, parecia o fim de alguma coisa.
Era um momento solene.
Ficamos um tempo em silêncio, olhando juntos para ele.

Lá fora o sol se punha,
o tipo de simetria precisa
que sempre registrei.

Se pelo menos eu soubesse, ele disse,
o efeito das palavras.
Você está vendo como esta coisa ganhou peso e importância
desde que eu falei?

Eu podia ter feito isto há muito tempo, ele disse,
em vez de gastar meu tempo começando uma e outra vez.

2.

Meu professor tinha um pincel na mão
mas depois eu também tinha um pincel na mão -
os dois em pé juntos olhando para a tela
pelos cantos da qual
brotava uma turbulenta escuridão; no centro,
ostensivamente, o retrato de um cão.
O cão tinha uma certa qualidade forçada;
agora eu percebia. Nunca
fui muito boa com coisas vivas.
Com luminosidade e escuridão me viro bastante bem.
Eu era muito jovem. Diversas coisas haviam acontecido
mas nada havia acontecido
uma e outra vez, o que faz uma diferença.
Meu professor, sem ter dito uma só palavra, começou a se virar
para os outros alunos. Por mais que eu sentisse pena de mim
                                           [naquele momento,
sentia mais pena ainda do meu professor, que sempre usava
                                           [as mesmas roupas
e não tinha uma vida, pelo menos não uma vida aparente,
só um sentimento agudo do que estava vivo na tela.
Com a mão livre, toquei seu ombro.
Por que, perguntei, o senhor não fez nenhum comentário                                 

  [sobre a obra que está diante de nós?

Fui cego durante muitos anos, ele disse, embora tivesse um olho sutil e judicioso quando via,
qualidades que, acredito, estão fartamente evidenciadas na
                                   [minha própria obra.
É por isso que dou tarefas a vocês, ele disse,
e por isso sou tão rigoroso nas perguntas que faço.
Quanto a meu dilema atual: quando acho, ao ver o desespero
e a raiva de um aluno, que ele se tornou um artista,
nesse caso eu falo. Diga-me, continuou,
O que você acha do seu próprio trabalho?

Está faltando noite, respondi. Na noite posso ver minha
                                          [própria alma.
É também o que penso, ele disse.

3.

Sou contra
a simetria, ele disse. Segurava com as duas mãos
um pedaço desequilibrado de madeira que um dia
já fora bem grande, como um galho de árvore:
isso foi antes da segunda vida que teve na água,
depois da qual, embora houvesse menos dele
em termos de massa, havia maior
densidade espiritual. A madeira flutuante,
ele disse, confirma meu ponto de vista - é por isso que ela
                                                    [parece
inerentemente dramática. Para sublinhar sua opinião,
bateu na madeira. Com certa violência, parece,
porque um pedaço quebrou.
Movimento!, ele exclamou. Aprendam! Olhem essas pinturas,
ele disse, referindo-se às nossas. Eu trabalho com arte
há mais tempo do que vocês respiram
e mesmo assim minhas telas têm vida, se afogam
em vida - Nesse ponto, calou-se.
Eu estava ao lado do meu trabalho, que agora parecia rígido
                                                [e sem vida.
Hora do intervalo, ele disse.

Saí da sala, por um momento, para o ar da noite.
Era uma noite fria. A cidade ficava numa praia,
perto do local onde antes estava a mata.
Senti que não tinha futuro nenhum.
Havia tentado e fracassado.
Havia tomado meus fracassos por triunfos.
A expressão fumaça e espelhos entrou na minha cabeça.
E de repente o professor estava do meu lado,
fumando um cigarro. Fazia muitos anos que ele fumava,
a pele dele era cheia de rugas.
Você estava certa, ele disse, no modo
como instintivamente se recolheu.
Poucos fazem isso, como vai perceber.
O trabalho virá, disse. Os traços
vão emergir do pincel. A essa altura fez uma pausa
para fitar calmamente o mar no qual, agora,
todos os planetas se refletiam. A madeira flutuante|
é pura cena, disse; distrai as crianças.
Mesmo assim, disse, é bem bonito, eu acho,
como aquelas árvores deformadas que os chineses cultivam.
Bon-sai, é o nome. E me entregou
o pedaço de madeira flutuante que havia quebrado.
Comece pequeno, disse. E deu um tapinha no meu ombro.

4

Procurem pensar, disse o professor,
numa imagem da infância.
Colher, disse um garoto. Ah, disse o professor,
isso não é uma imagem. É sim,
disse o garoto. Veja, eu seguro a colher na mão
e no lado convexo aparece um cômodo
só que distorcido, e é preciso mais tempo para ver o centro
do que os dois lados. Sim, disse o professor, é o que acontece.
Mas no sentido mais amplo, não é: se você move a mão
mesmo uns centímetros, já não é isso. Você não estava lá, disse
                                                  [o garoto.
Não sabe como arrumávamos a mesa.
É verdade, disse o professor. Não sei nada
da sua infância. Mas se você adicionar sua mãe
ao mobiliário distorcido, terá uma imagem.
Ela será boa, perguntou o garoto, uma imagem forte?
Muito forte, disse o professor.
Muito forte e plena de presságios.

Louise Glück 

. . .

Poema do livro "Receitas de inverno da comunidade", da ganhadora do Nobel da Literatura de 2020, Louise Glück.

Ganhei o livro de meu bem, numa de suas vindas de Porto Alegre. Uma belíssima surpresa! Não tinha sequer ouvido falar dela. Cada poema deste livro é como chegar num lugar quente e acolhedor, numa noite muito fria... e não estamos sós... 
Nunca senti esta sensação ao ler poemas: a de fazer parte da humanidade, de lembrar de meu grupo: mãe, irmãs, professores, amigos de infância, amigos de juventude... 

Este livro tem a beleza de jóia bruta: rústica, natural, cujo brilho e a preciosidade vamos percebendo a medida que tocamos... Raro ler algo assim.


31 janeiro, 2023

répteis

se houver tempo, 
devolve a poesia aos répteis 
(Edimilson de Almeida Pereira)

Filhotinho de lagarto passeando
enquanto eu fazia pilates com a Tathi
se houver tempo
devolve a poesia aos répteis
deixa que ela se estenda o sol
infle os pulmões sobre as costelas
rústica      algo quebradiça
mas a bem da verdade inocentada
desses e de outros adjetivos
se houver tempo
devolve os répteis aos répteis
as matas à sua filigrana
o pântano às suas poças
os mares à sua luz
devolve o humano ao seu
um tanto quanto
ave réptil anfíbio (parentes
a 400 milhões de anos)
capaz de se espraiar pelo tempo
de vida
que ainda houver
e saber que ela deve também se passa
de graça e à toa
enquanto estranhos fantasmas
degolam-se uns aos outros
no subsolo dos distritos financeiros
e sempre chegam tarde para o jantar


Adriana Lisboa

...

Do livro "Os vivos", de Adriana Lisboa, que ganhei de meu bem quando chegou de Porto Alegre, em janeiro de 2023. 

12 janeiro, 2023

Pedritas en la ventana

Minha netinha Jojo na janela de casa. 2013.

De vez em quando a alegria atira pedrinhas em minha janela

quer avisar-me que está lá esperando

mas hoje me sinto calmo

quase diria equânime

vou guardar a angústia em seu esconderijo

e logo estender-me de cara ao teto

que é uma posição galharda e cômoda para filtrar notícias

e acreditar nelas

quem sabe onde ficam minhas próximas pegadas

nem quando minha história vai ser computada

quem sabe que conselhos vou inventar ainda

e que atalho acharei para não segui-los

está certo não brincarei de despejo

não tatuarei a recordação com esquecimentos

muito fica por dizer e calar

e também ficam uvas para encher a boca

está bem me dou por persuadido

que a alegria não atire mais pedrinhas

abrirei a janela

abrirei a janela


Mario Benedetti

17 setembro, 2021

AUTODEFINICIÓN

Esboços de juventude. Por Claudia Félix.


Soy Teresa Wilms Montt
y aunque nací cien años antes que tú,
mi vida no fue tan distinta a la tuya.
Yo también tuve el privilegio de ser mujer.
Es difícil ser mujer en este mundo.
Tú lo sabes mejor que nadie.
Viví intensamente cada respiro y cada instante de mi vida.
Destilé mujer.
Trataron de reprimirme, pero no pudieron conmigo.
Cuando me dieron la espalda, yo di la cara.
Cuando me dejaron sola, di compañía.
Cuando quisieron matarme, di vida.
Cuando quisieron encerrarme, busqué libertad.
Cuando me amaban sin amor, yo di más amor.
Cuando trataron de callarme, grité.
Cuando me golpearon, contesté.
Fui crucificada, muerta y sepultada,
por mi familia y la sociedad.
Nací cien años antes que tú
sin embargo te veo igual a mí.
Soy Teresa Wilms Montt,
y no soy apta para señoritas.



Teresa Wilms Montt

. . .

Teresa Wilms Montt foi uma escritora chilena libertária do início do século XX. Nasceu em Viña del Mar em 8 de setembro de 1893 e faleceu em 24 de dezembro de 1921, em Paris, aos 28 anos. 

Considerada precursora do anarcofeminismo, sua vida breve foi repleta de acontecimentos marcantes. Filha de uma família rica, era extremamente bonita e inteligente. Casou-se aos 16 anos com um funcionário público, Gustavo Balmaceda Valdés, 10 anos mais velho, com quem teve 2 filhas. 5 anos depois, em 1915, foi internada num convento pelo marido por ter um caso extraconjugal. 

Teresa foge do convento e vai morar em Buenos Aires, onde publica 2 livros e lá participa da vida literária. Ela se envolve com Horacio Mejía, poeta argentino, que se suicida na casa dela, o que a faz mudar-se para Nova Iorque para ser enfermeira da Cruz Vermelha. Em Nova Iorque é acusada de ser espiã alemã, sendo posteriormente liberada. Teresa então muda-se para Madrid e começa a fazer parte do circulo literário e publica um livro. Depois volta para Buenos Aires, em 1919, e publica seu último livro em vida. 

Ela retorna à Europa, viajando por vários países. Reencontra suas filhas e sogro em 1920 na Bélgica, mas após partirem ela entra em depressão. Em 22 de dezembro de 1921 toma altas doses de remédio para dormir, morrendo 2 dias depois, na véspera de natal. Somente no Sec. XXI que sua obra poética e seus diários íntimos são retomados. 

Doeu tanto conhecer esta poeta, saber sua historia... quantas mulheres tiveram suas vidas dilaceradas pelo machismo, pelo patriarcado? E hoje? Quantas ainda?

(Fonte: https://www.memoriachilena.gob.cl/602/w3-article-805.html)

24 setembro, 2015

do tempo

un-gif-dans-ta-gueule:

variation of an old gif…



Os anos passaram rápido 
por nossos olhos, peitos, cabelos, 
por todos os dias e horas 
que nem sabemos mais 
quanto riso e quanta lágrima, 
quanto amor e angústia, 
quanto sonho.


Claudia Félix


12 junho, 2015

Muito mais grave

Lagoa da Conceição. Foto by Claudia Félix.

Todas as parcelas de minha vida têm algo teu
e isso na verdade não é nada de extraordinário
tu o sabes tão objetivamente como eu

no entanto há algo que gostaria de esclarecer-te
quando digo todas as parcelas

não me refiro só a isto de agora
a isto de esperar-te e aleluia encontrar-te
e caramba de perder-te
e voltar a encontrar
e oxalá nada mais

não me refiro só a que de pronto digas
vou chorar
e eu com um discreto nó na garganta
bom, chora
e que um lindo aguaceiro invisível nos ampare
e quem sabe por isto saia em seguida o sol

nem me refiro só a que dia após dia
aumente o estoque das nossas pequenas
e decisivas cumplicidades
ou que eu possa     ou crer que posso
converter os meus reveses em vitórias
ou me faças o terno presente
do teu mais recente desespero

não
a coisa é muitíssimo mais grave

quando digo todas as parcelas
quero dizer que além desse doce cataclisma
também estás a reescrevendo minha infância
essa idade em que dizemos coisas adultas e solenes
e os solenes adultos as celebram
e tu ao contrário sabes que isso não serve
quero dizer que estás rearmando minha adolescência
esse tempo em que fui um velho carregado de receios
e tu sabes em troca extrair desse deserto
o meu gérmen de alegria         e presenteá-lo olhando-o

quero dizer que estás sacudindo minha juventude
esse cântaro que ninguém nunca pegou em suas mãos
essa sombra que ninguém aproximou da sua sombra
e tu em troca sabes estremecê-la
até que comecem a cair as folhas secas
e fique a armação da minha verdade sem proezas

quero dizer que estás abraçando minha maturidade
esta mistura de estupor e experiência
este estranho confim de angústia e neve
esta vela que ilumina a morte
este precipício da pobre vida

como vês é mais grave
muitíssimo mais grave
porque com estas ou com outras palavras
quero dizer que não és tão só
a querida menina que és
mas também as esplêndidas
ou cautelosas mulheres
que quis ou quero

Porque graças a ti tenho descoberto
(dirás já era hora             e com razão)
que o amor é uma baía linda e generosa
que se ilumina e se escurece
segundo venha a vida

uma baía onde os barcos
chegam e se vão

chegam com os pássaros e augúrios
e se vão com sirenes e nuvens carregadas
uma baía linda e generosa
onde os barcos chegam
            e se vão
Mas tu
por favor
               não te vás.



Mario Benedetti

19 maio, 2015

Fonfom



E assim a vida segue: as flores desabrocham, as borboletas alçam vôos pela tarde ensolarada, os aviões somem no azul, a saudade vai virando epiderme, pois a vida segue, aqui e lá longe, para lá onde aviões e borboletas migram, para lá onde moram os sonhos, para lá onde meu sobrinho Fonfom fez mais um ano, para lá, para além mar, é para lá que hoje seguem todas as coisas lindas: a vida! 



Claudia Félix
..........

Um looooongo abraço em ti, cheio de amor e saudade, meu sobrinho amado.


02 maio, 2015

Momento


O mundo que se inunda claro em vultos roxos
No caos profundo em que a tristura
Tange mansinho os ventos aos mulambos.

A gente escapa da vontade.
Se sente prazeres futuros,
Chegar em casa,
Reconhecer-se em naturezas-mortas...

Ôh, que pra lá da serra caxingam os dinossauros!

Em breve a noite abrirá os corpos,
As embaúbas vão se refazer...

A gente escapa da vontade.
Os seres mancham apenas a luz dos olhares,
Se sobrevoam feito músicas escuras.

E a vida, como viola desonesta,
Viola a morte do ardor, e se dedilha...
Fraca.


Mário de Andrade (1926)

Foto: A caminho do sul. Abril 2015

24 agosto, 2014

apenas


tanto tempo passou
aqui estamos
esquecidos
de coração que bate lento
de olhar perdido
um sentimento arde
nesta tarde fria
um silêncio sussurra
um cão late lá fora
uma vontade de ser
abraçada
apenas


Claudia Félix

24 julho, 2014

Amor que serena, termina?


Amor que serena, termina?
começa? que nova
velhice o espera para viver?
qual fulgor? amor surgindo

de si mesmo a si mesmo sendo
também memória de si
comendo
de si, que velha

sombra chupará sua nuca? Oh pestes
que visitaram meu país
atacaram se foram
alheias como o vento



Julian Gelman


18 julho, 2014

Nostalgia

De que se nutre a nostalgia?24db990395cfe35df4be950b838f140f Beautiful GIF Animations by Oamul Lu.
Alguém evoca doçuras
céus atormentados
escândalos sem ruído
paciências estiradas
árvores ao vento
opróbios prescindíveis
belezas de mercado
cânticos e alvoroços
garoas como penas
escopetas de sonho
perdões bem ganhados
mas com esses mínimos
não se arma a nostalgia
são meros simulacros
a válida a única
nostalgia é de tua pele



Mario Benedetti


...


Tradução livre por Claudia Félix


21 junho, 2014

trago uma flor


trago uma flor
do pátio da casa
que já foi tua
trago um silêncio
um aperto no peito
uma lágrima perdida
trago tua lembrança
para sempre
em minha vida




Claudia Félix

...

para meu irmão, que faria 50 anos.

19 junho, 2014

Meu caro amigo Chico,


O que seria te ouvir no vivo do dia? O que seria ver a clareza de teu olhar? O que seriam teus gestos espontâneos pegando o violão, olhando para um lado outro? Quando fui ao Rio, certa feita, orava ao Redentor para te ver passando e não te ver, pois não sei o que de mim seria depois desse dia.

Tua voz é uma das minhas lembranças mais remotas e está entrelaçada a meu ser, tal forma não conceberia um mundo sem a rouquidão das tuas músicas. 

Pulava pequenina esperando ‘A banda’ passar, cantando coisas de amor. Mais tarde, numa aula ginasial compreendi o ‘Cálice’, que se tornou o hino que eu entoava em meu peito adolescente nas brigas familiares, em plena ditadura. ‘Geni’ era o nome de minha avó, e ficava na fula da vida toda vez que ouvia teus impropérios! Muito mais tarde compreendi o que dizias.  Quando engravidei, aos 17, ouvia ‘O caderno’ aos prantos e, ao término do malfadado namoro, num dezembro triste, ‘Anos dourados’ foi o som das noites insones. E depois ‘Folhetim’.

Ninei minha filha, e agora minhas netas, cantarolando ‘João e Maria’. ‘Roda-viva’ eu cantava nos bares, na época da faculdade, abraçada aos amigos, vislumbrando um mundo melhor . 'Apesar de você’ foi o tema da festa de fim de ano, depois da derrocada de Lula para Collor. Tantas desilusões amorosas depois passaram, ‘Todo sentimento’ era o fundo de cada término de um amor. E quando minha grande amiga morreu os ‘Pedaços de mim’ que faltaram tiveram som. E depois, o de todos os que se foram.

E quando o ‘Cotidiano’ me prendia com seu tédio, lembrava que todo dia-a-dia tem alguma poesia.  E quando a paixão me tirava do chão e eu não sabia ‘O que será que será’, e seria. 

E é um mundaréu de sons e palavras belas, poemas, todas ressoando em algum lugar de meu ser e de toda gente. Seja burguês, pobre, proletário, dama, prostituta, mocinha decente, bandido, machista, feminista, homossexual, transsexual, heterossexual, indeciso, triste, alegre, louco, criança, jovem, velho, doutor, analfabeto, sulino, nordestino, capitalista, socialista, petista, anônimo, artista, seja quem for, onde for, tua arte é para todos sem distinção de qualquer espécie (exceto nazistas).

Estás dentro do arco que compreende minha existência, som que embala o sono bom, som dos carnavais, som que cria esperança nos dias tristes, um pedaço azul do céu, uma estrela nas noites de festa, uma chama nas noites de ardor, um alento nas noites de solidão. O mundo é mais bonito com teu olhar, Chico, luzeiro tão lindo de ouvir, palavras que tocam na gente como pele. Como gente. 

Muita vida, Chico, e felicidade, sim!


Claudia Félix


Ainda sonho um sonho possível: te ouvir ao vivo, e aqui!  E fica aqui registrado meu apoio à campanha: Vem pra Floripa, Chico, vem!

11 junho, 2014

Com quantos sonhos se faz uma netinha?




Com quantas asas se faz uma fada?
Com quantas piruetas se faz uma bailarina? 
Com quantas coroas se faz uma princesa?
Com quantos abraços se faz uma ursinha?

Basta apenas uma Lilizinha
e tudo se faz num instante:
fada, bailarina, princesa, ursinha, ...
Infinitos sonhos numa só netinha!



...

Há dois anos Lili fez do mundo
uma bola fofinha e feliz
recheada de amor:
do mais doce :)



 Claudia Félix

04 junho, 2014

melancolia


É tarde, sei, tenho que dormir. Mas faz tempo que não escrevo e hoje preciso. É que meus pés ficaram gelados o dia todo apesar das muitas meias. Sinto falta de algo quente. Hoje revi antigas amigas: um sabor de saudade, de tempo que passa. Tenho me deparado com esta questão do tempo: o rosto no espelho, a vontade de arrumar umas coisas, jogar fora outras, de apagar frases mal ditas, de mudar o cabelo, de aproveitar os minutos e, se possível, diminuir a rotação da Terra.

Faz tanto frio em meu quarto, os pés gelaram até pensamentos. Meu rim dói. Tive medo. Quero um colo, um afago, teus pés esquentando os meus. Hoje especialmente.

Ou amanhã.




Claudia Félix

(Num dia frio de 2012)



24 maio, 2014

Do amor maior do mundo


os filhos nunca crescem
no coração da gente
criam em nossas vidas
um recanto para sempre encantado
com cheiro de talco, riso de neném
barulho de correria no pátio
abraço apertado de braço pequenino
olhos iluminados, nariz vermelho
sopinha de batata, chá com mel e limão
um lugar único
de alegria sem fim
e quando eles voam
seguros e lindos
construindo seus sonhos
pessoas maravilhosas
neste mundo difícil
criam um novo lugar
no coração da gente
um lugar onde sorri uma mãe
realizada


Claudia Félix

...

Hoje é dia de celebrar tua vida, minha filha!!! Mulher incrível, mãe leoa e amorosa, esposa apaixonada, neta carinhosa, sobrinha estimada, prima divertida, amiga fiel, nora adorável, patroa querida, e a melhor filha do mundo!!! A cada dia te desejo, meu amor maior do mundo, toda felicidade, toda alegria, toda sorte, toda proteção, todo amor e tudo que há de mais belo!!! Amor, mammy. 

18 maio, 2014

ausência





e a tardinha cai
suave
e no alto uma pandorga
avisa do vento
ao pescador atento
a vida segue
e fica apenas
esta saudade
esta ausência
no mundo
que a brisa
leva




Claudia Félix





hoje fui na praia deixar o vento me abraçar neste dia de memória e lamento: dia do aniversário de meu pai, que se foi, e fica sempre este algo estranho no peito, nestes dias que já foram de comemorar... 

15 maio, 2014

Algum dia direi:




Algum dia direi:
"Antes lhes cantava os altos e baixos do coração,
mas acabaram por aborrecer-me.
Agora prefiro observar como crescem os cogumelos".

E meu caderno me olhará boquiaberto,
sem saber o que fazer, se rir ou chorar.




© Miren Agur Meabe


Algún día diré:
"Antes les cantaba a los altibajos del corazón,
pero acabaron por aburrirme.
Ahora prefiero observar cómo crecen los hongos".

Y mi cuaderno me mirará boquiabierto,
sin saber qué hacer, si reír o llorar.



  

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"e o mundo é meu, o mundo é seu, de todo mundo..." Zeca Baleiro