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27 fevereiro, 2012

II - Dez chamamentos ao amigo






Ama-me. É tempo ainda. Interroga-me.
E eu te direi que o nosso tempo é agora.
Esplêndida altivez, vasta ventura
Porque é mais vasto o sonho que elabora
Há tanto tempo sua própria tessitura.
Ama-me. Embora eu te pareça
Demasiado intensa. E de aspereza.
E transitória se tu me repensas.



Hilda Hilst


Foto: O céu que nos protege. Campeche. Florianópolis.





19 outubro, 2011

XIII - Amavisse



De grossos muros, de folhas machucadas
É que caminham as gentes pelas ruas.
De dolorido sumo e de duras frentes
É que são feitas as caras. Ai, Tempo.

Entardecido de sons que não compreendo.
Olhares que se fazem bofetadas, passos
Cavados, fundos, vindos de um alto poço
De um sinistro Nada. E bocas tortuosas.

Sem palavras.

E o que há de ser da minha boca de inventos
Neste entardecer. E do ouro que sae
Da garganta dos loucos, o que há de ser?


Hilda Hilst


Foto: Ponte Velha. Florianópolis. SC.


Há uma ponte desativada há décadas na minha cidade, a "Ponte Velha". Este final de semana paramos ali por um acaso: fazer o quê num domingo cinza no centro da cidade enquanto esperávamos Inácio? ver a ponte, de perto. Lembro menina passar por ela de carro ou ônibus, o trajeto sinuoso e de repente o mar. Certa vez, na sexta série, gastei o dinheiro do ônibus no lanche e tive que voltar a pé um trecho (estudava na Trindade e morava no continente, pegava dois ônibus então). Passei pela longa e ventosa passagem de pedestres em madeira, foi este meu contato mais íntimo com a ponte. A questão é que há a ponte, está sempre ali, desde a lembrança mais remota do mais antigo vivente. Ela é o nosso Redentor. Ela é uma constância em minha vida, uma das poucas. Não tenho esperanças dela ser reativada. Pode ser uma inutilidade gigantesca e dispendiosa, para uns. Ela é uma interrogação no coração deste povo pacato. Mas  não tenho dúvidas do que hoje ela é: uma ponte para os sonhos, a lembrança ...  


24 agosto, 2011

III- Sonetos que não são



/ poeminha
Tenho te amado tanto e de tal jeito
Como se a terra fosse um céu de brasa.
Abrasa assim de amor todo meu peito
Como se a vida fosse vôo e asa

Iniciação e fim. Amo-te ausente
Porque é de ausência o amor que se pressente.
E se é que este arder há de ser sempre
Hei de morrer de amor nascendo em mim.

Que mistério tão grande te aproxima
Deste poeta irreal e sem magia?
De onde vem este sopro que te anima
A olhas as coisas com o olhar que as cria?

Atormenta-me a vida de poesia
De amor e medo e de infinita espera.
E se é que te amo mais do que devia
Não sei o que se deva amar na terra.


Hilda Hilst
Foto: Dos dias iluminados. Florianópolis. SC.

30 abril, 2011

Aflição de ser eu e não ser outra


Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha)
Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel
Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.



Hilda Hilst
Foto: Das palavras encantadas. Museu da Língua Portuguesa. SP.

31 março, 2011

Alcoólicas II



Hilda Hilst
Imagem: Manuscrito de Hilda.

Amigas que a vida me presenteou, mesmo longe, sempre aqui: Maíra e Lenira.
Hoje é dia de vocês!

25 março, 2011

Do amor contente e muito descontente - 13



Somos crianças nesta noite escura.
Tudo mais não sabemos
Largas raízes maduras
Apressam nosso passo
E é de amor e aço
O teu longo abraço em toda minha cintura.

Somos crianças nesta noite escura.
E a noite é fria
E pouca para a fantasia
Morno rumor de sombras
E de folhas
Desfolha a rosa
Que eu te prometia
Temos olhos e sonhos

E eu não sou aquela
Que o teu sonho pedia.


Hilda Hilst
Foto:  Dos dias que não celebramos. Onze-horas do jardim de casa. Florianópolis.

Ontem o dia passou e não sabia: me perdi nas horas... nos perdemos. Mas estamos juntos: vivendo e aprendendo..

18 novembro, 2010

11 - Do amor contente e muito descontente




Desatenta espero
Passar o tempo.
Tão desatenta

Que se o soubesse
Desataria toda vigília
- Verso e lamento.

Amo e desfaço
Sem o querer
Amor e abraço.

Um bem eu quis
E desatenta
Tão desatenta

Não vi o espaço
Que dividia
A tua boca

Do meu cansaço.


Hilda Hilst


Foto: Esquecimento. Cacupé. Florianópolis.

04 novembro, 2010

17 - Do amor contente e muito descontente



As coisas que procuro
Não têm nome.
A minha fala de amor
Não tem segredo.

Perguntam-me se quero
A vida ou a morte.
E me perguntam sempre
Coisas duras.

Tive casa e jardim
E rosas no canteiro.
E nunca perguntei
Ao jardineiro
O porquê do jasmim
- Sua brancura, o cheiro.

Queiram-me assim.
Tenho sorrido apenas.
E o mais certo é sorrir
Quando se tem amor
Dentro do peito.


Hilda Hilst


Foto: Dos risos. Beira-Mar Norte. Florianópolis.

28 agosto, 2010

XII - Júbilo, memória, noviciado da paixão



Dentro do círculo
Faço-me extensa.
Procuro o centro
Me distendo.
Túlio não sabe
Que o amor se move
No seu de dentro
E me procura
Movente, móvil
No lá de fora.

Túlio de mim
Tem se movido
Tão desatento
Como se a nuvem
Já se movendo
Buscasse o vento
Como se a chuva
Toda molhada
Buscasse a água.


Hilda Hilst

Foto: Das coisas esquecidas. Lagoa da Conceição. Florianópolis.

23 agosto, 2010

VI - Amavisse



Foto: Quando a nuvem beija o mar. Praia da Daniela. Florianópolis.
Que as barcaças do tempo me devolvam
A primitiva urna das palavras.
Que me devolvam a ti e o teu rosto
Como desde sempre o conheci: pungente
Mas cintilando de vida, renovado
Como se o sol e o rosto caminhassem
Porque vinha de um a luz do outro.

Que me devolvam a noite, o espaço
De me sentir tão vasta e pertencida
Como se águas e madeiras de todas as barcaças
Se fizessem matéria rediviva, adolescência e mito.

Que eu te devolva a fonte do meu primeiro grito.


Hilda Hilst

...
as nuvens desceram do azul e beijaram nossos rostos: véspera de sóis.

14 junho, 2010

X - Ode descontínua e remota para flauta e oboé

(De Ariana para Dionísio)



Se todas as tuas noites fossem minhas
Eu te daria, Dionísio, a cada dia
Uma pequena caixa de palavras
Coisa que me foi dada, sigilosa

E com a dádiva nas mãos tu poderias
Compor incendiado a tua canção
E fazer de mim mesma, melodia.

Se todos os teus dias fossem meus
Eu te daria, Dionísio, a cada noite
O meu tempo lunar, transfigurado e rubro
E agudo se faria o gozo teu.


Hilda Hilst
Foto: Coração no céu. By Poeminha e Mr. Inn. Florianópolis.
12 de Junho de 2010.

Namorar, amar, compartilhar, sonhar, rir, incluir, comer, passear, beber, realizar, conhecer, ... verbos deliciosos de conjugar.

30 abril, 2010




Teus passos somem
Onde começam as armadilhas.
Curvo-me sobre a treva que me espia.

Ninguém ali. Nem humanos, nem feras.
De escuro e terra tua moradia?

Pegadas finas
Feitas a fogo e a espinho.
Teu passo queima se me aproximo.

Então me deito sobre as roseiras.
Hei de saber o amor à tua maneira.

Me queimo em sonhos, tocando estrelas.


Hilda Hilst

Ilustração: Suerte. Por Troche.

25 março, 2010

Enquanto faço o verso



Enquanto faço o verso, tu decerto vives.
Trabalhas tua riqueza, e eu trabalho o sangue.
Dirás que sangue é o não teres teu ouro
E o poeta te diz: compra o teu tempo.
Contempla o teu viver que corre, escuta o teu ouro de dentro.
É outro o amarelo que te falo.

Enquanto faço o verso, tu que não me lês
Sorris, se do meu verso ardente alguém te fala.
O ser poeta te sabe a ornamento, desconversas:
"Meu precioso tempo não pode ser perdido com os poetas".

Irmão do meu momento: quando eu morrer
Uma coisa infinita também morre. É difícil dizê-lo:
morre o amor de um poeta.
E isso é tanto, que o teu ouro não compra,
E tão raro, que o mínimo pedaço, de tão vasto
Não cabe no meu canto.


Hilda Hilst

Foto: Das coisas que não germinam. Cacupé. Florianópolis.

07 janeiro, 2010

quinta



É tempo para dizer
Se prefiro o teu amor
Àqueles, aos doces ares
Da minha campina em flor.
Tu que projetas e inventas
Estruturas ascendentes
E sonhas com superfícies
Além destes continentes
Tu que conhece melhor
As coisas do querer bem
(Porque até agora te quis
E antes não quis ninguém)
Tu, bem o sei, me pressentes.
E mais ainda, me vês
Tão perto do querer ser
Deste amor sempre contente...
Ah, descantares, lamentos,
As leves coisas do tempo
Têm seu tempo e seus altares.
É tempo para escolher
O anoitecer nas planuras
E o contemplar luaceiros
E é tempo para calar
A estória dos meus roteiros.
Paisagem, tu me alimentas
De verde, de sol, de amor.
E numa tarde tranquila,
Nos longes, seja onde for
Lembra-te um pouco de mim:
Que eu morra olhando as alturas
E que a chuva no meu rosto
Faça crescer tenro caule
De flor. (Ainda que obscura.)


Hilda Hilst - Cinco elegias


Foto: Das leves coisas do tempo. Baía Sul. Florianópolis.

21 maio, 2009

E o tempo tomou forma.
Assim me soube
Envolta em grande mar até a cintura
E nada a não ser água e seu rumor
Aos ouvidos chegava.
E soube ainda
Que um só gesto e sopro acrescentava
Essa vastíssima matéria.
E atenta
Em consideração a mim, cobri-me de recuos.
Eu, que de docilidade me fizera.
Antes avara desse tempo que resta.
Se em muitos me perdi, uma que sou
É argamassa e pedra. Guardo-te a ti.
Em consideração a mim. Redescoberta.



Hilda Hilst

Foto: Reflexão com ponto de fuga. Campeche. Florianópolis.

10 abril, 2009

de delicadeza me construo


De delicadeza me construo.
Trabalho umas rendas
Uma casa de seda para uns olhos duros.
Pudesse livrar-me da maior espiral
Que me circunda e onde sem querer me reconstruo!
Livrar-me de todo olhar que quando espreita, sofre
O grande desconforto de ver além dos outros.
Tenho tido esse olhar. E uma treva de dor
Perpetuamente.
Do êxodo dos pássaros, do mais triste dos cães,
De uns rios pequenos morrendo sobre um leito exausto.
Livrar-me de mim mesma. E que para mim construam
Aquelas delicadezas, umas rendas, uma casa de seda
Para meus olhos duros.


Hilda Hilst

Foto: Vermelhos. Florianópolis.

13 fevereiro, 2009

amavisse


Não haverá um equívoco em tudo isso?
O que será em verdade transparência
Se a matéria que vê, é opacidade?
Nesta manhã sou e não sou minha paisagem
Terra e claridade se confundem
E o que me vê
Não sabe de si mesmo a sua imagem.
E me sabendo quilha castigada de partidas
Não quis meu canto em leveza e brando
Mas para o vosso ouvido o verso breve
Persistirá cantando.
Leve, é o que diz a boca diminuta e douta.
Serão leves as límpidas paredes
Onde descansareis vosso caminho?
Terra, tua leveza em minha mão.
Um aroma te suspende e vens a mim
Numas manhãs à procura de águas.
E ainda revestida de vaidades, te sei.
Eu mesma, sendo argila escolhida
Revesti de sombra a minha verdade.

Amavisse - Hilda Hilst

Foto: Leveza. Sambaqui. Florianópolis.


24 outubro, 2008

É meu este poema ou é de outra?


É meu este poema ou é de outra?
Sou eu esta mulher que anda comigo
E renova a minha fala e ao meu ouvido
Se não fala de amor, logo se cala?

Sou eu que a mim mesma me persigo
Ou é a mulher e a rosa escondidas
(Para que seja eterno o meu castigo)
Lançam vozes na noite tão ouvidas?

Não sei. De quase tudo não sei nada.
O anjo que impulsiona o meu poema
Não sabe da minha vida descuidada.

A mulher não sou eu. E perturbada
A rosa em seu destino, eu a persigo
Em direção aos reinos que inventei.



Hilda Hilst

Foto: Lá longe. Rainha do Mar. RS.

12 outubro, 2008

.X.



Que te demores, que me persigas
Como alguns perseguem as tulipas
Para prover o esquecimento de si.

Que te demores
Cobrindo-me de sumos e tintas
Na minha noite de fomes
Reflete-me. Sou teu destino e poente.
Dorme.

Hilda Hilst





Foto: Tulipa By Poeminha. Florianópolis

02 setembro, 2008

Devo viver entre os homens...


Devo viver entre os homens
Se sou mais pêlo, mais dor
Menos garra e menos carne humana ?
E não tendo armadura
E tendo quase muito de cordeiro
E quase nada da mão que empunha a faca

Devo continuar a caminhada?
Devo continuar a te dizer palavras
Se a poesia apodrece
Entre as ruínas da casa que é a tua alma?
Ai, luz que permanece no meu corpo e cara:
Como foi que desaprendi de ser humana?

Hilda Hilst

Foto: Árvore castigada de vento em Rainha do Mar - RS. By Poeminha.

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"e o mundo é meu, o mundo é seu, de todo mundo..." Zeca Baleiro